Um bom ano para o segmento de leilões

7 de fevereiro de 2022

As vendas de animais por meio de licitação espelharam o bom momento que a bovinocultura de corte atravessa: valorização de produtos e expansão produtiva.
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Um bom ano para o segmento de leilões
Lourenço Campo

A análise é de Lourenço Miguel Campo, leiloeiro rural e diretor da Central Leilões, empresa pioneira na comercialização de animais melhoradores genéticos provados. Foi ela que há mais de 20 anos acreditou nesse tipo de oferta e, hoje, tornou-se referência, com grade fechada nesse tipo de oferta. O foco está no bom atendimento tanto de quem vende quanto de quem compra. Apesar de trabalhar em todo o País, tem seus principais clientes em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná, realizando mais de 180 eventos por ano.

Campo entende que 2021 foi um grande ano para o setor, apesar da economia do País não apresentar um quadro favorável e das tensões políticas e institucionais, sem contar o clima de perdas pessoais trazido pela pandemia do coronavírus. O mercado mostrou muita liquidez, forte demanda, boa oferta e valorização, inclusive, comparativamente, ao dólar. Para o empresário, 2022 deve seguir na mesma toada, pois a pecuária nacional está se redimensionando.

MAB – Como foram os leilões, em 2021, comparativamente aos de 2020, e por que?

Lourenço Campo – No que diz respeito aos preços médios praticados nos reprodutores (touros), os leilões de animais registram incremento entre 30 e 35%, dependendo das raças e praças comerciais envolvidas. No gado de corte, as boas expectativas do mercado produtor de carne puxaram os valores ainda mais para cima, em torno de 40%.

MAB – Como se comportaram demanda, liquidez e comportamento de preços nas vendas envolvendo animais de produção (touros para cobertura a campo, fêmeas para reprodução e bezerros para recria e engorda)?

Lourenço Campo – 2021 foi um ano de muitas vendas, portanto os leilões fluíram mais e a liquidez foi absoluta. Todos os animais de produção foram vendidos, incluindo touros e, principalmente, bezerros, supervalorizados. Se o bezerro está bem cotado, a demanda por fêmeas para produzi-los aumenta que, por sua vez, têm suas cotações elevadas.

MAB – E como foi o setor na pecuária seletiva, ponderando raças zebuínas e europeias, além de produtos como embriões e prenhezes?

Lourenço Campo – No caso das raças zebuínas, foi um ano de reconstituição da base de fêmeas para ampliar a produção, em quase todo o País. A matriz zebuína é a fábrica de carne e o gado Nelore seu carro-chefe, com mais de 80% de prevalência na genética do rebanho nacional.

Então, elas estiveram no topo e, dependendo da região e genética, valorizaram muito. O zebu, em especial o Nelore, tomaram conta do mercado. Já no Sul do Brasil, as raças europeias seguiram o comportamento das zebuínas no restante do País, pois lá também se tomou a estratégia de ampliar o rebanho para produzir mais.

Vale dizer que observamos até um isolamento do Sul em relação do restante do País, pelas diferenças de modelo, status sanitário e custo de transporte. Isso significa dizer que a troca de genética via animais, entre as duas porções brasileiras, estiveram mais restritas. Porém, esse contexto não mexeu na equivalência de valorização.

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Lourenço Campo à frente da Central Leilões há mais de 20 anos

MAB – Como ficaram os preços frente à inflação e a valorização do dólar?

Lourenço Campo – Com certeza a valorização foi real e não por conta da inflação, exatamente pela forte procura de produtos. E vale notar que esse incremento de preços se dá inclusive quando os dolarizamos. Veja a cotação de 5,58 em 30 de dezembro de 2020 para 5,91 em 4 de janeiro último. Dá pouco mais de 2%, apenas.

MAB – Quais as perspectivas para este 2022, considerando todos os segmentos citados acima?

Lourenço Campo – Eu entendo que essa recomposição de rebanho – estagnado entre 2015 e 2019 – ainda não acabou. Mesmo com problemas pontuais como o do embargo chinês observado entre setembro e dezembro do ano passado, a demanda por nossa carne é crescente. Logo, vejo que há muito espaço para crescer, até em rebanho, e aprimorar a criação.

Outro aspecto é que nos últimos anos, a pecuária perdeu muita área para agricultura, caminhando ainda mais para as periferias das várias regiões. Entendo que até isso está mudando, com uma bovinocultura de tornando mais competitiva frente às outras culturas. Esse quadro todo ainda está iniciando um processo de rearrumação.

Então o setor produtivo está engatinhando nessa coisa de colocar “ordem na casa”. Isso vai levar anos se nada atropelar a história. Então avalio de 2022 será um ano parecido com 2021, ou seja, de crescimento. Talvez mais modesto, em função da conjuntura econômica e política do País. Temos problemas como forte inflação e desemprego, além de um ano eleitoral.

MAB – Como fica o setor com uma retomada dos leilões presenciais? Eles virão em peso ou muitos se manterão virtuais?

Lourenço Campo – Eu até achava que dois terços deles (virtuais durante a pandemia) voltariam para a forma presencial, em 2022. Mas agora, frente à variante Ômicron e sua possível duração no tempo, não sei mais fracionar. Mas uma coisa é certa: a forma virtual trouxe grandes avanços, facilidades e economia à comercialização de animais em leilões.

Acho que a TV e a Internet, principalmente, vieram para ficar nesse processo de modernização, embora os remates presenciais jamais deixarão de acontecer, em função do grande apelo confraternal que apresentam. Explico isso por uma série de sentimentos que o brasileiro valoriza muito. Bons negócios com amigos e muita festa é sempre especial.

Por : Ivaris Júnior – Portal MAB

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