A Marcha no Brasil, a “Neta do Gesto” e das Cavalhadas!

O colunista do portal MAB, Luiz Alberto Patriota fala sobre a origem da Marcha no Brasil e da predileção por esse tipo de andamento

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A Marcha no Brasil, a “Neta do Gesto” e das Cavalhadas!
Mas, afinal, de onde vem o gosto do brasileiro pela marcha? Andamento que caiu no gosto e parece-nos ser a regra para um bom cavalo de sela e passeio”, questiona o colunista – Foto: Divulgação/H. Possebon 

Alguns anos atrás escrevi um artigo, notório por integrar o famoso livro da família Junqueira sobre a raça Mangalarga, “O Nosso Mangalarga, a Raiz, a Arvore e o Jardim”, que se chamava “Marcha Trotada, a Filha do Galope”, artigo esse também já postado aqui. Trata-se de um breve relato de como o galope serviu de meio para a observação e seleção do andamento singular e característico da raça Mangalarga, a Marcha Trotada, por seus formadores da família Junqueira em solo paulista.

Mas esse andamento é apenas o fim de uma genealogia mais antiga que hoje venho expor: Se a Marcha Trotada é “filha do galope”, as marchas em geral, no Brasil, são “netas do gesto” e das antigas Cavalhadas! Ao menos é essa a teoria que amalgamou meu dileto amigo e criador Flavio Fernandes Araujo (Haras Catedral) em suas diligentes pesquisas históricas e reflexões. 

Muito se discute e eu mesmo já me perguntei muitas vezes de onde vem o gosto do Brasileiro pela Marcha, e na maioria das vezes o que escutei são teorias carentes de dados históricos, puramente sociológicas e permeadas por uma síndrome de vira-lata comum aqui no Brasil, dizem seus adeptos que o Brasileiro gosta de Marcha porque tem preguiça de aprender equitação, ou não tem educação equestre suficiente para apreciar os andamentos clássicos, etc. 

 A Marcha, no mundo, de fato é um andamento raro e marginal, contamos nos dedos os países ou culturas que criaram e usaram raças de marcha. Em regra, os andamentos “naturais” e mais valorizados são os tradicionais passo, trote e galope, mas aqui em terras brasilis a Marcha caiu no gosto e parece-nos ser a regra para um bom cavalo de sela e passeio. 

Façamos um pequeno relato histórico sobre as origens da Marcha no Brasil: 

Gilberto Diniz Junqueira em artigo intitulado “Os cavalos da Bahia”, mostra relatos de LICURGO DOS SANTOS no seu livro “Uma comunidade Rural do Brasil Antigo”, uma carta retirada do arquivo do “Sobrado do Brejo”, antigo casarão Baiano, dirigida ao “Capitam Antonio Pinheiro Pinto” solicitando a compra de um cavalo chamado Sendeiro por seu bom andar. 

Relatos assim indicam que antes mesmo de 1787, ou antes da chegada da Família Real, os cavalos do Nordeste, de predominante sangue holandês, já eram famosos por seu andar macio. A carta é de 1808, e ele não via o amigo desde 1787. E são esses cavalos de origem holandesa que desceram para abastecer as Minas Gerais e São Paulo. 

Don Emilio Solanet traz inúmeros relatos sobre a formação do cavalo vindo do Nordeste e nos atesta a influência do sangue holandês em sua formação. 

“Entre Ias causas de Ia frecuencia de pelos overos y tobianos en los yeguarizos 

deI Brasil, pueden senalarse: a) Ia mutación, que dio una capa preferida por sus 

habitantes; b) Ia herencia deI frisio venido con los holandeses durante Ia invasión 

de algunos territorios deI Brasil por São Salvador (Bahia) y por Olinda a 

Pernambuco, en 1624 y 1630, Y que se extendió veinticuatro anos después; el 

tobiano se da como abundante en el pasado, en Ias estirpes caballares de Frisia y 

de los Estados germarios del Oeste, próximos aI Mar deI Norte.” 

Há mesmo um relato do próprio Maurício de Nassau que conta ter desembarcado com oitenta cavalos para carregar canhões em Pernambuco. 

Bom, a origem dos marchadores já investigamos, mas como esse andamento se preservou por tantos séculos e de onde veio este gosto por esse tipo de cavalo? É aí onde uma tradição medieval portuguesa trazida com o descobrimento ao Nordeste, as Cavalhadas ou “Torneios” exerceram papel fundamental em selecionar esse tipo de animal, de gestos alçados, e sem gesto, como sabemos, não há Marcha. Vejam mais esses relatos no livro de Evaldo Cabral de Mello “Nassau, Governador do Brasil Holandês”: 

“Os torneios: 

1641 

“Tratou o príncipe de festejar a aclamação d’el-rei D.João com grandes festas e ostentações de alegria, e para isto mandou terraplenar e aplainar uma comprida carreira que estava defronte das suas casas. E para que os cavalos se não pudessem desgarrar, mandou fazer uma estacada baixa da parte do mar e muitos palanques e teatros de madeira para se assentarem a gente que viesse ver as festas. E da outra parte da carreira, estavam todas as casas bem providas de janelas. E logo tomada boa informação de pessoas que bem sabiam deste particular, escreveu cartas a todos os homens mancebos e bons cavaleiros qe que tinham cavalos regalados em toda a capitania de Pernambuco, para que lhe fizessem mercê de se quererem achar com seus cavalos em uma festa solene que pretendia fazer. 

……….tanto pois que os mancebos cavaleiros de Pernambuco se viram avisados por as cartas do príncipe, logo se prepararam………..E chegado o dia aprazado, se vieram apresentar ao príncipe, o qual os recebeu com alegre semblante, e os hospedou a sua mesa…………..” 

Nassau formou duas equipes de cavaleiros , uma ,que tinha à frente, composta de batavos, franceses, ingleses e alemães, e outra só de luso-brasileiros, capitaneada por Pedro Marinho Falcão. 

“Os holandeses sempre se descompunham em picar os cavalos, que suposto que eram os melhores da capitania, em dando em suas mãos logo se deitavam a perder, porquanto os holandeses não lhes ensinavam outras habilidades mais que a dar saltos, e lhes faziam perder aquelas que haviam aprendido nas mãos dos portugueses. Os portugueses ,como todos iam à gineta, corriam tão fechados nas selas e tão compostos e airosos que levavam após si os olhos de todos, e principalmente os olhos das damas.” 

Desse modo segundo Flavio Fernandes podemos traçar uma linha do tempo clara em que os cavalos marchadores de sangue holandês, selecionados nas cavalhadas para andamentos alçados que caíram no gosto do brasileiro e da família real portuguesa, descidos para Minas Gerais e São Paulo fizeram fama nas seleções do Mangalarga Marchador e Mangalarga. Está aí uma tese, amarrada historicamente, que explica as origens de nossas marchas e nossa predileção por esse andamento.  

Espero que, assim como eu, tenham gostado! 

Por Luiz Alberto Patriota
Crédito da foto: Divulgação/H. Possebon

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