A ultrassonografia de carcaça vem revolucionando a bovinocultura de corte por permitir que se olhe os bovinos por dentro; ou seja, que se saiba seu potencial produtivo de carne na quantidade e na qualidade, antes de destinar seu fim. Sua efetividade é tão grande que os principais programas de avaliação genética estabeleceram Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) para as características por ela mensuradas.
Liliane Suguisawa é zootecnista, professora, mestre, doutora e uma das maiores autoridades do País quando o assunto é ultrassonografia de carcaça. Ela também é diretora técnica da DGT Brasil, empresa líder na atividade, com sede em Presidente Prudente (SP). Em exclusiva ao Mundo Agro Brasil, ela explica um pouco o que significa o uso dessa ferramenta e o quanto ela pode retornar em lucro aos seus usuários.

MAB – O que é a ultrassonografia de carcaças bovinas e para que serve?
Liliane Suguisawa – A ultrassonografia de carcaça é uma ferramenta portátil aplicada nos bovinos vivos para predizer características de carcaça e de carne, com importância econômica tanto para a seleção genética quanto para a indústria frigorífica.
No sentido de promover a democratização da prestação de serviços destas informações, os EUA desenvolveram softwares de coleta e interpretação das imagens de ultrassonografia de carcaça possibilitando confiança, agilidade e profissionalismo. A DGT Brasil é a representante do Software BIA para toda a América do Sul.
MAB – Qual a importância para a pecuária dessas características (separe em seletiva e comercial, caso ache necessário)?
Liliane Suguisawa – As medidas avaliadas por ultrassonografia de carcaça Software BIA são: AOL (área de olho-de-lombo), Ratio (formato da AOL), AOL/100 (área de olho-de-lombo por 100 kg de Peso Vivo), EGS (espessura de gordura subcutânea), MAR (marmoreio da carne), que impactam musculosidade, precocidade sexual, de terminação e qualidade da carne, respectivamente.
Dado a média-alta herdabilidade destas características, o mapeamento objetivo dos melhores indivíduos da safra, para multiplicação dos expoentes (coleta de sêmen dos machos e FIV / TE das fêmeas), e acasalamentos corretivos (touros de repasse selecionados e touros para IATF em fêmeas), nos permitem resultados já nas próximas gerações.
Na Pecuária Seletiva estas informações também abastecem o banco de dados do respectivo programa de melhoramento genético, para geração das DEPs de AOL, EGS e MAR da raça. Já na Pecuária Comercial estas informações são comumente utilizadas para formação de classes de acasalamento corretivo para IATF e seleção, e multiplicação de rebanho produtor de carne gourmet.
A maior diferença no uso da ultrassonografia de carcaça entre a Pecuária Seletiva e Comercial é o tempo necessário para padronização dos resultados já que os desafios de Registro Genealógico, Funcionalidade, Desempenho, DEPs e Padrão Racial precisam ser igualmente atendidos pelos rebanhos de Genética gerando complexidade ao processo.
MAB – Desde sua chegada, na DGT Brasil, o quanto cresceu o uso da ultrassonografia de carcaças, em termos de números de pecuaristas adeptos e de diagnósticos (incluindo números de parceiros da empresa)? Em quais estados da federação ela já chegou?
Liliane Suguisawa – Os trabalhos com o Software BIA estão presentes na América do Sul desde 2006, com atendimento a mais de 800 fazendas e 1 milhão de animais avaliados em 15 estados brasileiros e 6 países.
Por meio do credenciamento de técnicos para prestação de serviços de ultrassonografia de carcaça com o Software BIA, criou-se a Rede DGT Brasil, onde existem mais seis equipes no Brasil (Pecus, SelectionBeef, ProImagem, PrimeBov, Breed e UltraPec) e uma no Paraguai (BeefScan).
MAB – Como a ferramenta ganhou espaço nos principais programas de melhoramento genético?
Liliane Suguisawa – Como a indústria frigorífica americana remunera o produtor com base nas mesmas características medidas na carcaça (AOL, EGS e MAR), todos os programas de melhoramento genético utilizam a ultrassonografia para coleta da informação e geração das DEPs de AOL, EGS e MAR, onde a raça Angus é a pioneira do processo, desde 1995.
No Brasil, com a profissionalização da prestação deste serviço, diretamente ligado ao conhecimento da tecnologia e aumento de equipes disponíveis, existe demanda crescente de rebanhos de genética interessados nesta seleção, gerando banco de dados para cálculo das DEPs de AOL, EGS e MAR em várias raças. O programa Geneplus Embrapa foi pioneiro na geração da DEP de MAR na raça Nelore, característica inédita no rebanho até 2010.
MAB – No caso das raças zebuínas, em especial da Nelore, a ferramenta parece de extrema importância para colocar sua carne no mercado gourmet. Como está este processo?
Liliane Suguisawa – Dada a grandiosidade e vasta dispersão do rebanho, a raça Nelore é responsável pela produção da carne brasileira. Nos últimos dez anos houve melhorias significativas sendo cada vez mais frequente o abate de animais jovens da raça, com peso elevado (21 @), boa EGS (acabamento mediano), critérios fundamentais para a produção de carne macia para o consumidor. No entanto, ainda é raro encontrar carne com marmoreio no Brasil demonstrando que a raça não apresenta esta característica em alta frequência.
Por meio do emprego da tecnologia da ultrassonografia Software BIA há seleção e multiplicação dos indivíduos superiores da raça para AOL, EGS e MAR. Deste propósito criou-se a Associação Confraria da Carcaça Nelore, união de selecionadores, produtores, varejo, técnicos, centrais de coleta de sêmen e jornalistas que juntos visam agregar valor e qualidade a carne do Nelore.
A democratização desta genética vai aumentar a quantidade de animais com estas características no rebanho comercial, levando a carne Nelore para um patamar superior de qualidade.
Dos processos de certificação de carne de qualidade que existem no Ministério da Agricultura, os únicos rebanhos que recebem o selo da ACNB por representar exclusivamente a raça Nelore são pertencentes a Confraria Carcaça Nelore.
MAB – Qual a relação custo x benefício da utilização de ultrassonografia de carcaças? Como se deve encarar este investimento na fazenda? Onde ela incrementa?
Liliane Suguisawa – A avaliação é única na vida do animal, sendo comumente realizada na idade de Sobreano tanto para a Pecuária Seletiva quanto Comercial. Como esta tecnologia ainda não foi amplamente empregada na América do Sul, é comum encontrar grande variabilidade dentro do mesmo rebanho.
O benefício da sua utilização é a padronização rápida para as características que impactam diretamente na lucratividade do sistema de produção tais como aumento do peso da carcaça quente, taxa de prenhez, marmoreio e maciez da carne.
MAB – O que o pecuarista ou até confinador deve ter em casa (exigências) para pensar em utilizar a ultrassonografia de carcaças?
Liliane Suguisawa – Além de infraestrutura adequada (tronco de contenção, balança) e controle individual, a propriedade precisa ter sistema de produção definido que possibilite o adequado desenvolvimento dos animais. Assim, quando se tem a lição de casa bem-feita e encontram-se variações entre os animais, a ultrassonografia de carcaça entra como tecnologia mais assertiva para implementar ganhos.
Diferentemente da Pecuária Seletiva e Comercial, a aplicação da ultrassonografia de carcaça em confinamento objetiva a padronização das carcaças na indústria frigorífica, gerando economia de alimentação por meio da determinação do ponto ótimo de abate e aumento da assertividade na escolha dos animais com genética para produção de carne gourmet (alto MAR).
MAB – Que considerações finais gostaria de fazer a esta reportagem, talvez em função de questões que não foram contempladas?
Liliane Suguisawa – Em tempos de vasta oferta de proteínas industrializadas e busca desenfreada pela saúde, importante lembrar que a carne bovina é alimento nobre, natural, saudável e de mais alto valor biológico.
A carne brasileira, por ser produzida por maior tempo a pasto, tem o bônus de ser “especial” para o mundo. Este sistema bem conduzido gera bem-estar para os animais, contribui para o meio ambiente e potencializa o sabor único do produto.
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