Eu sou de uma época que as palavras “Big Brother” remetiam ao livro “Nineteen Eighty-Four”, ou “1984”, de George Orwell, que eu tinha que ler para a escola. A ideia de uma figura observando, acompanhando cada passo que dávamos, além de angustiante, invasiva, parecia utópica. 40 anos depois, temos tecnologias, que viabilizam esta transparência, governos que as utilizam para um controle social e até um programa televisivo de alcance incrível, que atribui ao espectador exatamente este poder. O que justifica o nome do programa é a mesma postura julgadora, do que é permitido, ou não, fazer.
Quem me conhece sabe que sou essencialmente otimista. Gosto de pensar que este tipo de interesse na atividade alheia também tem a ver com a noção, ou a expectativa, de estarmos mais informados, que tenhamos mais insight nos contextos, para podermos opinar sem (muitos) intermediários ou influenciadores.
A pandemia de Covid-19 e a guerra da Rússia contra a Ucrânia demonstraram a importância de termos transparência na gestão. A integração global, buscada essencialmente para otimizar custos, passou a representar um claro risco de descontinuidade de operações, além de riscos de outra natureza, como reputacionais, morais. O movimento de desglobalização surge como resposta para passar a ter mais controle direto sobre as diferentes etapas de um processo, uma maior transparência de atores (e práticas!) envolvidos.
A rastreabilidade atende este desejo: como compreender de forma transparente, o que acontece em cada elo da cadeia, como é produzido o que consumimos, o nosso alimento, por exemplo, quem é responsável por cada impacto (para o bem e para o mal)?
O Pensamento de Ciclo de Vida “conversa” muito com a busca por transparência, uma vez que busca compreender as etapas de processos, os impactos ambientais, sociais e econômicos do produto analisado e de suas alternativas, considera o potencial de inovações e nos faz refletir sobre a nossa própria contribuição.
Recentemente foram publicados os resultados do índice de transparência, uma análise de 250 das maiores marcas e varejistas de moda do mundo, classificados de acordo com o seu nível de divulgação pública em direitos humanos e políticas, práticas e impactos ambientais. Em sua apresentação, Ruth MacGilp, Gerente de Comunicação da ONG Fashion Revolution, destacou próximos passos, considerando que “qualquer pessoa em qualquer lugar deve ser capaz de descobrir como, onde, por quem e a que custos sociais e ambientais as suas roupas são feitas”:
⦁ Os cidadãos devem exigir que as principais marcas e varejistas sejam mais transparentes
⦁ Estas devem publicar a cadeia de fornecimento até o nível de matéria-prima, assegurar o respeito aos direitos humanos, publicar os riscos ambientais e os resultados dos esforços para mitigá-los
⦁ Os formuladores de políticas públicas devem promover melhores regulamentações, leis e políticas que exijam transparência e responsabilidade corporativa em questões ambientais e de direitos humanos na indústria da moda global
⦁ Os investidores e acionistas devem priorizar fatores ambientais, sociais e de governança significativos e confiáveis nas estratégias de investimento
⦁ A sociedade civil, os jornalistas e a academia devem verificar as manifestações feitas pelas marcas e responsabilizá-las, indicando quando não refletem a realidade de fato
Diante da crescente exposição global à opinião pública, demonstrar transparência de processos, intenções, obstáculos encontrados e avanços concretos, é fundamental.
Por Sonia Karin Chapman
Diretora Chapman Consulting
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