Quanto custa um cavalo Mangalarga formado?

Essa é uma reflexão postada em um artigo de 2010 para a revista da ABCCRM (Associação Brasileira de Cavalos da Raça Mangalarga), mas que em suas proporções continua absolutamente atual e, em estados como São Paulo, onde os preços da terra estão cada dia mais valorizados, as contas cada vez mais se confirmam. Sem dar “spoiler”, segue o artigo:
Share on whatsapp
Compartilhe no WhatsApp
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email
Share on telegram
Cavalos criados na Fazenda Vassoural — Foto: Divulgação/Fazenda Vassoural

O que podemos considerar custo de produção na criação de cavalos?

Instalações, manutenção, depreciação, custo financeiro, investimento em plantel, mão de obra, consultorias, etc.

Vamos fazer uma análise simplificada.

Uma matriz de boa qualidade deve custar no mínimo entre 10 e 20 mil reais, supondo que consigamos extrair dela 12 produtos em média, teremos cada barriga custando aproximadamente R$ 1.000,00.

A cobertura de um bom garanhão deve sair por volta de R$ 1.500,00 no mínimo, portanto, já estamos em R$ 3.500,00 e o potrinho nem começou a ser gestado.

Desconsiderando custos de acompanhamento veterinário e procedimentos de transferência de embrião que poderiam encarecer em mais R$ 3.000,00 nossas contas, vamos começar a manter somente a égua e seu produto.

Lá em casa gasto todo mês:

. R$ 50,00 com ferreiro (só para casquear, ferradura seria uns R$ 75,00)

. R$ 90,00 com ração (90 kg por mês, R$1,00/kg entregue na propriedade)

. R$ 60,00 com mão de obra (rateio por animal)

. R$ 60,00 água, luz e manutenção (rateio por animal)

. R$ 10,00 custos veterinários (3 visitas por ano/ rateio por animal)

Desconsiderando alguma eventualidade temos por mês um custo de R$ 270,00 por mês/animal

Para nosso produto nascer são 11 meses, ou seja, R$ 2.970,00.

Após o nascimento, o nosso produto passa a custar pouco, pois está mamando, portanto, dos 3 anos até sua plena formação vamos desconsiderar os 6 primeiros meses.

Assim, são mais 2,5 anos, que custarão R$ 8.100,00.

– R$ 14.570,00, é esse o número final da minha grosseira matemática da criação de cavalos semi confinados.


Vamos criar a pasto então?!!!

Não se enganem, um cavalo criado a pasto não sai muito mais barato do que isso não.

Um pasto bem formado deve suportar por volta de 2 a 3 UA/hectare e mesmo assim, em certos períodos como gestação e amamentação, a égua deve receber uma suplementação mínima de ração.

Considerando um custo de R$ 15.000,00 a R$ 25.000,00 por hectare no Estado de São Paulo e um custo financeiro de 0,5% ao mês, esse animal custaria para viver nesse pasto por volta de 40 a 50 reais/mês. Considerando o custo de formação e manutenção do pasto, teríamos um animal custando por volta de R$ 80,00 por mês em regime de pasto.

Portanto, a pasto, nosso potro custaria R$ 2.500,00 (genética), R$ 2.970,00 (manutenção égua gestante R$ 270,00 X 11 meses), R$ 6.600,00 (criação do potro a pasto R$ 220,00 X 30 meses), somando R$ 12.070,00.

Potro semi confinado: R$ 13.570,00 + R$ 300,00 (custos de registro) = R$ 13.870,00

Potro a pasto: R$ 12.070,00 + R$ 300,00 (custos de registro) = R$ 12.370,00

Proporções de custo:

– % Custos Potro a Pasto

. Genética: 21% ou R$ 2.500,00

. Manutenção Gestante: 24% ou R$ 2.970,00

. Criação até 3 anos: 55% ou R$ 6.600,00

. Total: 100% ou R$ 12.370,00 (c/reg.)

– Potro Semi Confinado

. Genética 18% ou R$ 2.500,00

. Manutenção gestante: 22% ou R$ 2.970,00

. Criação até 3 anos: 60% ou R$ 8.100,00

. Total: 100% ou R$ 13.870,00 (c/reg.)

Conclusões:

Visivelmente, o maior custo é o de manutenção ou criação, portanto, alternativas para baratear os custos de manutenção do plantel são importantes. Ganho de escala com aumento do plantel, criação em terras com custo mais barato, venda de potros logo após o desmame e venda de coberturas de garanhões são medidas que podem viabilizar financeiramente o haras.

Outro problema é: Como vender um produto desse preço??? Atualmente, as médias dos leilões de cavalos da raça Mangalarga gira em torno dos R$ 20.000,00 aparentemente ainda dentro da nossa faixa de custo, mas nem sempre as vendas atingem esses preços e deve-se considerar também os custos de inscrição em leilões, que giram em mais de R$ 2.000,00 mais frete, parcelamento e comissão que podem “capar” até 35% de nosso valor de venda. Não analisaremos lotes mais caros, pois são geralmente animais com um extenso currículo de pistas, comprovada vida reprodutiva e um custo genético altíssimo, variáveis não mensuráveis. Esses, portanto, fogem ao escopo deste artigo, pois são exceção.

Enfim, é importante a análise de custos de produção, pois o controle financeiro do haras e um bom planejamento em longo prazo podem garantir a permanência na atividade e melhorar as expectativas de criadores iniciantes muitas vezes afoitos por resultados imediatos. Na equinocultura temos que pensar no longo prazo e trabalhar com muita calma e consciência.

Adaptado de artigo escrito e publicado em 2010 na revista ABCCRM.

Relacionadas

Veja também

Antes mesmo da idade do Bronze, os cavalos eram usados em guerra e atualmente, no Brasil, seguem sendo usados pelas forças de segurança e pelo Exército Brasileiro. Mas de onde vem esses animais para atenderem todos esses usos e toda essa demanda?
Em sua coluna no portal MAB, Luiz Alberto Patriota fala sobre o trabalho de seleção e melhoramento genético dos criadores de cavalo, que está longe de ser uma ciência exata, relembrando, inclusive, uma citação do criador da raça Mangalarga, Fausto Simões
A malha de liberdade, respeito mútuo e tradições, sob uma reta e justa jurisdição, que mantém uma manada funcionando, deveriam servir de exemplos para uma boa vida em sociedade.
O colunista do portal MAB, Luiz Alberto Patriota fala sobre a origem da Marcha no Brasil e da predileção por esse tipo de andamento