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Reposição de Glicogênio após o Exercício em Equinos

Manter as reservas de energia dos cavalos atletas plenas é um desafio diário que envolve vários fatores
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O glicogênio é a forma armazenada da glicose, presente em sua grande maioria na musculatura dos cavalos. Essa reserva é utilizada pelo organismo como fonte de energia nos momentos em que o cavalo realiza qualquer esforço físico ou mesmo necessita gerar calor para manter sua temperatura corporal em dias frios, por exemplo. Podemos dizer que as reservas musculares de glicogênio são o principal “tanque de combustível” para sustentar o exercício, pois esse substrato energético é utilizado de várias formas, e em diversos tipos de situações de esforço. A glicose obtida através da mobilização das reservas de glicogênio é utilizada tanto em situações aeróbicas, em que o esforço é moderado e o organismo consegue entregar oxigênio ao músculo na mesma velocidade em que ele é consumido, quanto em situações de esforço anaeróbico, quando o consumo de oxigênio pela musculatura é muito mais rápido e o músculo precisa trabalhar na ausência de oxigênio. Exemplos de esforços aeróbicos são: o trabalho a passo ou trote relaxado, e até mesmo um galope bem lento ainda é um exercício predominantemente aeróbico. Já esforços como tiros de galope, viradas bruscas, saltos e qualquer situação que exija do cavalo explosão, são esforços puramente anaeróbicos. A glicose pode ser usada para gerar energia nas duas situações, e provas de alta exigência frequentemente consomem boa parte das reservas musculares de glicogênio, gerando necessidade de reposição.

Em contraste com os humanos

Os cavalos produzem glicogênio duas a três vezes mais lentamente que os humanos e outros mamíferos. Esse tempo é de 72 horas. Ainda em contraste com os humanos, os cavalos não conseguem acelerar a reposição do glicogênio muscular consumindo grandes quantidades de carboidratos digestíveis e açúcares, estratégia conhecida como “carb loading”, ou “carregamento de carboidratos”. Em equinos, além de não fornecer resultados, essa prática ainda traz aumento de riscos para o cavalo, pois a ingestão de amido aumenta e com isso há a chance da sobrecarga de amido provocar problemas como cólica e laminite também.

Cavalos que são exercitados frequentemente, ou que participaram de um dia de competição intenso e tiveram suas reservas de glicogênio depletadas, precisariam de 3 dias sem exercício intenso e alimentação regular para repor plenamente essas reservas. Mas existem algumas estratégias alimentares que podem ser usadas para aumentar a eficiência da reposição e contornar situações como a necessidade de competir intensamente em dois ou três dias seguidos, por exemplo.

Estratégias

A primeira estratégia é fornecer uma dieta equilibrada em amidos, fibras e gordura. A melhor forma de repor glicose é fornecer glicose, e por isso o amido, que é composto de glicose, precisa estar presente em quantidade na dieta do cavalo atleta. Uma forma de garantir um bom aporte e ainda manter a segurança alimentar alta e os riscos de sobrecarga de amido baixos é fornecer alimentos com fontes de amido de fácil digestão, como por exemplo a aveia, que é um grão naturalmente fácil para o cavalo digerir, ou o milho extrusado ou pré-cozido, como os floculados e laminados. Ao contrário da aveia, o amido do milho tem digestibilidade natural baixa, mas o tratamento térmico obtido com a extrusão, floculação ou laminação aumentam grandemente a facilidade de digestão do amido pelo cavalo. Quanto mais alta for a digestibilidade do amido, maior a probabilidade de que todo o amido seja digerido no intestino delgado, evitando a passagem de amido não digerido para o intestino grosso do cavalo, fator que desencadeia distúrbios gástricos, entre eles a cólica. Produtos que contêm uma boa distribuição das fontes de energia (fibras, amidos e gorduras) garantem uma melhor eficiência de reposição das reservas.

Outra estratégia ligada à alimentação é buscar alimentos que promovam a “economia” das reservas de glicogênio. Recordando o que falamos sobre o trabalho aeróbico e anaeróbico, a glicose pode ser usada em ambas as situações. A gordura, entretanto, só pode ser transformada em energia na presença de oxigênio, e por isso é muito usada nos momentos de exercício aeróbico. Se a dieta do cavalo tiver um bom equilíbrio entre amido e gordura, e níveis adequados de gordura, essa fonte de energia poderá ser usada nos momentos de trabalho leve, aeróbico, “poupando” as reservas de glicogênio, que estarão mais cheias quando o animal entrar no exercício de explosão, momento em que ele somente utiliza o glicogênio.

Outro ingrediente interessante e que atua de forma similar à gordura na dieta é a polpa de beterraba. Originária do processo de fabricação do açúcar da beterraba branca, a polpa é rica em pectina, uma fibra altamente digestível e que produz muita energia na forma de ácidos graxos de cadeia curta (acetato, propionato e butirato), que são transformados em energia. Alguns produtos do mercado brasileiro já contam com a inclusão desse ingrediente, mas por ser importado (o Brasil não produz açúcar de beterraba), normalmente é encontrado em produtos super premium destinados a cavalos atletas de alta performance.

Mais medidas importantes

Outra medida importante para aumentar a eficiência da reposição das reservas de glicogênio é manter os cavalos bem hidratados. Cavalos desidratados têm reposição lenta da glicose muscular. Portanto, reidratar os cavalos, principalmente após exercícios ou provas intensas, auxilia na reposição de glicogênio após o trabalho.

Finalmente, pesquisas mostraram que cavalos têm maior eficiência na reposição das reservas de glicogênio nos 90 primeiros minutos após o término de um exercício intenso. Sendo assim, é importante oferecer ao cavalo atleta, tão logo que possível após a prova, uma refeição da ração de costume, que contém amido. Vale lembrar que essa refeição só deve ser oferecida quando o animal tiver retomado a frequência cardíaca e respiratória de descanso. O tempo entre o término da prova e a normalização dos batimentos cardíacos e da respiração varia de acordo com o condicionamento do cavalo. Em animais de alta performance esse tempo pode ser de dez minutos, enquanto que cavalos que não têm um regime de condicionamento físico regular ou ainda em início de treinamento podem levar mais de meia hora para retornar às condições de descanso. Independentemente do tempo, assim que o cavalo estiver descansado, forneça 1,5 a 2 kg da ração que ele está acostumado a receber e aguarde cerca de duas horas para fornecer o feno, evitando que o volumoso arraste a ração do estômago e intestino delgado antes de sua digestão completa. Esta estratégia é especialmente eficiente em cavalos que competem em um dia e precisam entrar novamente em pista no dia seguinte.

Lembre-se de garantir sempre uma boa ingestão de volumoso (forragem) de qualidade. Apesar de não conter amido, que é glicose prontamente disponível, as fibras também contêm glicose de liberação lenta, e devem ser a base de toda dieta equina, uma vez que o cavalo é um animal herbívoro com alta capacidade de conversão de fibras em nutrientes importantes para sua sobrevivência e desempenho.