Associações de Criadores e o “Efeito Pirâmide” – Parte 2

Basta olhar por outro ângulo - Uma análise despretensiosa que busca uma solução simples
Compartilhe no WhatsApp

No primeiro artigo abordei o motivo ou o movimento em cadeia que tem levado muitas Associações de Criadores e suas respectivas raças, igualmente, a uma situação cada vez mais desoladora e de verdadeira irrelevância econômica.

Nesta segunda parte, gostaria de falar da principal solução para a problemática anteriormente apresentada: A falta de uma base forte e larga de usuários, associados e criadores.

Não pretendo aqui destrinchar uma lista de ações de fomento, porque a maioria delas já é bastante conhecida e, por vezes, aplicada e reaplicada sem muitos resultados práticos por essas mesmas instituições. O que tenho em mente é entrar no âmago do motivo que leva uma raça ou associação de criadores a prosperar, a ter a tal base larga em sua pirâmide.

O sonho de ser criador!

O que leva uma pessoa criar cavalos, gado ou qualquer outro animal de raça?

William E. Jones dizia que um “verdadeiro criador de cavalos orienta sua criação por toda a vida na tentativa de criar ou preservar um cavalo perfeito”. Outros criadores, porém, diriam que simplesmente buscam estatisticamente o “Cavalo de Um Milhão de Dólares”. Assim, eu diria que o sonho de ser criador é um conjunto de fatores: ambição, status, prazer, desejo de deixar um legado. E todas essas motivações são motores fortíssimos que movem homens, países e até reinos inteiros a devotarem-se à criação de raças e a formação de animais lendários.

Aí está a mola propulsora das Associações que dão certo! Elas sabem deixar a chama do sonho acesa nos criadores e admiradores de suas raças.

Analisemos novamente as três Associações/raças já citadas como casos de sucesso no último artigo.

Nelore e o Quarto de Milha são verdadeiramente sinônimos de sucesso, de liquidez, de mercado consolidado, leilões lotados, preços recordes… O Quarto de Milha coleciona cifras nas estatísticas de seus cavalos, as coberturas são tabeladas por parâmetros de faturamento real dos filhos que esses garanhões geram em corridas, vaquejadas e provas mundo a fora. O Nelore é raça que transcende qualquer moda, é o motor da pecuária do Brasil, com seu inseparável combustível africano, a Braquiária, sustenta a pecuária de nosso país faz décadas. São mercados sem fronteiras, internacionais, de liquidez e preços atrativos. Não é preciso sequer gostar das raças, os números, como investimento em si, falam sozinhos. Ainda assim, ícones no imaginário popular não faltam – quantos não já sonharam em ser um cowboy, em viver suas aventuras desde a infância, quantos não gostariam de ser “O Rei do Gado”? São lendas, músicas e milhares de histórias que, não bastassem os números suficientemente atraentes, fazem o restante do serviço e fisgam uma base de criadores, usuários e admiradores robusta todos os anos.

O Mangalarga Marchador, por sua vez, é um cavalo de lazer, não tem carreiras para ganhar ou carne para fornecer, mas ainda assim tem sua própria formula de despertar em todos que o conhecem o sonho ardente de ser um criador. A receita é simples: Tropa rústica, fácil de criar e uma certeza, TODOS podem ser campeões no Marchador!

Os eventos e exposições da ABCCMM são um caso à parte, são encontros que quando podiam ser realizados com público presencial, dificilmente não atingiam a condição de megaeventos, centenas de inscritos, pistas lotadas e premiações aos montes. O grande segredo do Marchador é que todos que entram na raça e nas pistas têm a convicção de que podem ser vencedores – não importa a marca do criador, os milhões ou poucos milhares investidos, se o animal foi treinado na esteira elétrica ou nos morros em um pequeno sítio no interior de Minas -, todos têm o direito de viver e sonhar o sonho de ser campeão.

Não há contra-fomento maior em uma raça do que o iniciante perceber que está entrando em um clube de privilegiados, em um jogo de cartas marcadas, em uma associação ou uma raça em que o novo criador sabe que, por mais que se esforce, nunca vai poder ter sucesso. Isso mata o sonho!! E não há fomento que o ressuscite.

Quando um iniciante começa a criar gado, sabe que não importa se ele é bilionário ou se veio de uma família tradicional; se o seu touro tiver DEP`s (Diferenças Esperadas de Progênie) relevantes, ele será valorizado. Um investidor do QM, que começa a criar, sabe que se seus produtos forem mais velozes, não importa sua marca, eles serão campeões. E um sitiante, por mais simples que seja, no Mangalarga Marchador vê seu produto, muitas vezes, desfilar entre cavalos que antes só acompanhava pelas capas de revista.

Aí está o ‘fomento’, aí está a ‘ação’: Manter vivo o sonho de poder ser um criador, e um criador de sucesso!

É desse sonho que vivem as raças e associações populares e de sucesso, independentemente de suas ações cotidianas, características ou peculiaridades de mercado. Esse é o combustível comum a elas, que move milhares de pessoas todos os anos, incentivando-as a se associarem, a criarem e a formarem mercados inabaláveis.

Enquanto o corporativismo, a cobiça, a vaidade e o orgulho cegarem alguns dirigentes de associações Brasil a fora, eles nunca poderão entender o que se pode fazer com um simples sonho, e com as raças extraordinárias que têm em suas mãos!

Relacionadas

Veja também

Rumos para nosso país e associações
Há um ditado que cunhei na Mangalarga faz algum tempo que diz: “Quem gosta mesmo de Mangalarga é a turma de Minas, Mangalarguista gosta é de Inglês ou de Marchador”
Passado o pleito de outubro, já não precisamos falar por meio de fábulas como no texto anterior, por receio de restrições.