Alimentando a Égua e o Potro após o Desmame

O desmame é uma época estressante para potros e também para suas mães.
Share on whatsapp
Compartilhe no WhatsApp
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email
Share on telegram

Enquanto as éguas frequentemente estão prontas para se despedirem de seus pequenos desordeiros, os potros têm mais dificuldade com a separação.

O desmame raramente afeta a égua negativamente. Na verdade, algumas éguas respondem muito bem à separação e começam a ganhar condição corporal uma vez que estão livres do peso da produção de leite. O potro, por outro lado, frequentemente entra numa crise de crescimento imediatamente após o desmame. Portanto, a nutrição adequada é fundamental.

O Potro desmamado

Potros normalmente são desmamados aos quarto ou seis meses de idade. Antes do desmame, o potro deve ser acostumado a consumir alimentos sólidos (ração). Isto em geral não é problema porque muitos potros costumam comer junto com as mães desde a primeira semana de vida, mesmo sem beber água em quantidades significativas nesta idade, uma vez que o leite satisfaz suas necessidades de líquido. Muitos potros começam a receber alimentos específicos através do sistema de creep feeding* ao redor dos dois meses de idade, quando o leite começa a diminuir em termos de nutrientes e quantidade.

O “creep feeding” serve dois propósitos: garante o atendimento das necessidades nutricionais dos potros e também os familiariza com o consumo de cereais e alimentos sólidos, para que a alimentação seja mais tranquila depois de serem separados de suas mães.

Como o potro deve ser alimentado após o desmame depende muito do que é esperado dele nos meses seguinte. Um potro desmamado destinado a exposições ou leilões alguns meses depois, por exemplo, deve ser manejado muito mais intensamente que um desmamado que está será treinado para competições, onde o crescimento e a condição corporal máximos não são imperativos.

Independente de seu uso eventual, o objetivo principal da alimentação de potros desmamados é o crescimento estável e uniforme. Para atingir seu crescimento ótimo, deve-se fornecer energia suficiente na dieta. Potros desmamados não têm capacidade de consumir forragem suficiente para atender suas necessidade de energia para crescer de forma constante. Portanto, é necessário fornecer ração concentrada. Geralmente, 500 a 750 gramas por dia por mês de idade são recomendadas para potros desmamados de todas as raças. Pôneis devem receber menos, cerca de 250 a 400 gramas por dia, por mês de idade. A ração fornece energia, proteína e minerais necessários para complementar o que a forragem não consegue entregar. Além disso, a ração deve ter níveis suficientes de lisina, um aminoácido essencial ao crescimento adequado. Rações formuladas com farelo de soja ou de canola geralmente são melhores devido a seu alto conteúdo de lisina. Os requerimentos de lisina têm sido reforçados por pesquisas nos últimos anos. Em um desses estudos, potros desmamados alimentados com dietas com nível de proteína adequado mas deficientes em lisina apresentaram crescimento mais lento que potros alimentados com a mesma dieta enriquecida com lisina. Uma ração apropriada para potros desmamados em regime de pasto ou alimentados com feno misto de gramíneas e leguminosas geralmente contem 14% de Proteína Bruta. Já potros cuja forragem principal é exclusivamente composta de gramíneas devem receber ração com teor de Proteína entre 16 e 18%. Leves excessos de proteína, ao contrário do que comumente se acredita, não causa problemas ósseos como epifisite e osteocondrose.

Forragens adequadas devem ser oferecidas para completar as necessidades energéticas dos potros desmamados. A maneira mais segura de atingir isso é permitir que o potro tenha acesso a toda forragem de gramíneas (por exemplo coast-cross) que ele quiser. O fornecimento de forragens leguminosas (por exemplo a alfafa) é aceitável, mas não deve ser feito indiscriminadamente nem à vontade. Ao invés disso, deve-se fornecer apenas o necessário para fornecer energia suficiente para promover o crescimento moderado a intenso. O fornecimento excessivo de leguminosas não é diferente do excesso de ração. Em ambos os casos, o resultado é o excesso de energia. Alguns pesquisadores acreditam que práticas de alimentação excessivas em energia pode contribuir para as doenças ortopédicas do desenvolvimento (DOD). Se uma forragem leguminosa for utilizada na alimentação dos potros desmamados, a quantidade ração pode ser reduzida para limitar o consumo de energia. Um potro desmamado que recebe 500 gramas por dia de ração pode passer a receber metade desse quantidade quando consome leguminosas.

Assim como muitos cavalos adultos, alguns potros desmamados têm maior facilidade de ganhar peso e podem se tornar obesos até mesmo com pequenas quantidades de ração. Nesses casos, os potros podem ser alimentados com uma fonte de baixa caloria e rica em proteína, vitaminas e minerais. Esses alimentos são comumente chamados de “concentrados”, cuja concentração de prteína, minerais e vitaminas é duas a três vezes maior que de uma ração comum. Isso permite fornecer metade ou um terço da quantidade que se forneceria de uma ração, reduzindo a ingestão de calorias (energia) mas mantendo o consumo adequado dos demais nutrientes.

Como todos os cavalos, os potros devem ter acesso ilimitado a água e sal comum (sal branco). O sal mineral, enriquecido com macro e microminerais, é indicado apenas quando não há níveis suficientes desses minerais na ração utilizada ou quando não se utiliza ração.

Quando se depende de um suplemento de consume livre (à vontade) para fornecer esses minerais, o consume adequado é essencial, e portanto deve se estar atento à reposição dos cochos de sal nos pastos.

A Égua

Geralmente se dá muita atenção aos potros durante o processo de desmame, e pouca ênfase é dada às éguas. Apesar de ser verdade que as éguas, principalmente aquelas que já tiveram muitos produtos, tendem a suportar o desmame com mais calma que os potros, as mudanças nutricionais nas dietas da éguas não devem ser esquecidas.

Num esforço para desacelerar a produção de leite, alguns criadores interrompem o fornecimento de ração às éguas cinco a sete dias antes do desmame e as mantêm sem ração até que tenham “secado”. O consumo de forragem de alta qualidade também é comumente reduzido para quantidades normalmente consumidas por éguas vazias. A redução da produção de leite de forma rápida e eficiente ajuda a evitar desconforto para a égua em razão de úberes cheios e doloridos. Apesar de ser uma pra´tica comum, não se deve ordenhar as éguas para esgotá-las, uma vez que a ordenha estimula a continuação da produção de leite.

Se uma égua está com condição corporal adequada após o desmame, ela pode ser solta num pasto de boa qualidade e alimentada de forma similar às éguas vazias ou em início de gestação. Se a lactação reduziu a condição corporal da égua a ponto dela se apresentar magra após o desmame, pode-se fornecer ração e forragem de alta qualidade, como uma mistura de gramíneas e leguminosas, para facilitar o ganho de peso.

Erros de nutrição comuns na fase inicial de vida dos cavalos podem levar a problemas estruturais posteriores que podem limitar o potencial atlético do potro. Portanto, a nutrição adequada do potro após o desmame é crítica. Tão importante é o manejo cuidadoso das éguas no mesmo período. Manter ou fazer com que as éguas atinjam uma condição corporal ótima é fundamental para sua futura eficiência reprodutiva.

20cmmenorqueamenoreguadopiquete
foto: exemplo de Creep Feeding: SENAR

* O creep feeding é um sistema que assegura que as éguas não consumam rações destinadas aos seus potros. O termo em inglês vem do verbo “creep”, que significa rastejar ou andar abaixado, numa alusão à necessidade que cavalos adultos teriam de andar dessa forma para passar pelas cercas baixas ao redor do cocho do creeper, cuja altura é planejada para permitir a passagem somente de animais jovens e menores. É um sistema ainda praticado, mas algumas mudanças têm sido feitas com relação ao tipo e à quantidade de ração oferecidos no creeper. 

Há anos a estratégia do “coma-o-quanto-quiser” era prática comum. Criadores ofereciam aos potros tanta ração quanto eles conseguissem consumir numa tentativa de promover o crescimento máximo. Um risco evidente dessa estratégia é o consumo excessivo, que pode levar a crescimento acelerado e problemas associados como contratura de tendões. Além dos problemas de crescimento e aprumos, alguns potros podem se tornar obesos. Potros devem ser mantidos em condição corporal moderada, uma vez que o excesso de peso causa stress desnecessário ao sistema muscular-esquelético. Além disso, o acesso constante à ração pode ser prejudicial à função gastro-intestinal. Alguns potros podem consumir muito mais do que é saudável para a digestão. A maioria das rações bem-formuladas destinadas a potros em crescimento têm recomendações de consumo bem mais razoáveis e saudáveis. Geralmente, potros ao pé e desmamados devem receber 500 gramas de ração por dia para cada mês de idade. Assim, um potro de seis meses deveria consumir até 3 kg de ração por dia, preferencialmente divididos em algumas refeições menores. Quanto menor a refeição maior a probabilidade dos nutrientes na ração serem digeridos e aproveitados em sua totalidade.

O principal objetivo da alimentação de potros jovens é manter o crescimento num ritmo estável, evitando picos de desaceleração e aceleração. Isto pode ser conseguido através do monitoramento da condição corporal e do peso dos potros de forma regular e da avaliação da dieta por um nutricionista equino qualificado.

Relacionadas

Veja também

A série sobre nutrição, elaborada pela nossa colunista Vanesa, vem abordar agora a energia, gerada a partir de certas fontes, e que pode sustentar as funções vitais e o desempenho dos cavalos
Nossa colunista Vanesa Mesquita está trazendo uma série de artigos sobre Nutrição de Equinos. Nesta primeira etapa, ela vai falar a respeito de cada um dos principais nutrientes que compõem a dieta do seu cavalo. E, na matéria a seguir, o assunto é a Proteína!
Como obter crescimento sadio nessa fase e garantir um futuro atlético de longa duração
Manter as reservas de energia dos cavalos atletas plenas é um desafio diário que envolve vários fatores