Vivemos uma crise de solidariedade

Sobretudo, necessitamos fomentar a agenda ESG, fazer da ODS 2 que trata de fome zero e agricultura sustentável uma realidade e acreditar que, de fato, tais mudanças podem ser um novo marco visando a prática da solidariedade
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Vivemos uma crise de solidariedade

Diante deste momento tão peculiar, onde ouvimos de forma recorrente palavras fortes como fome, morte, medo, aquecimento global, poluição, desmatamento, pandemia, extremismo, desrespeito, seca, solidão, fake news, desemprego, depressão, estagflação, empáfia, autoritarismo, fico refletindo as siglas e conceitos como ESG, Economia Circular, Sustentabilidade e ODS, e a aderência de pessoas como eu e das organizações sobre como se tornar um protagonista para mitigar e, mais do que algumas organizações fazem, que é utilizar destas siglas para a prática de greenwashing, nos tornar, de fato, contribuintes para gerar soluções perenes, diminuir a dor que este novo momento gera e colaborar para que as endorfinas e serotoninas possam fazer o “milagre” de transformar crises em oportunidades, em recompensas.

Necessitamos fomentar a agenda ESG, fazer da ODS 2 que trata de fome zero e agricultura sustentável uma realidade. Acreditar que pode ser um novo marco, uma meta de todos, onde, através de um olhar mais humano, mais ético e mais preocupado com a perenidade e saúde das empresas, seja a meta a ser atingida neste momento tão único.
Recriar e consolidar o ciclo de vida de um produto via Economia Circular, que vira resíduo, que volta a ser produto, protegendo o conceito legítimo da sustentabilidade, inserido no Relatório Brundtland de 1987 pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland.

Atuar no design de novos produtos e no redesenho de novas práticas, da prospecção e uso de novas matérias primas, menos sujeitas a gerar impactos negativos ao meio ambiente. Avaliar se as soluções também não causam impactos negativos.

Vejo raras ações estruturadas como campanhas de solidariedade, de distribuição de alimentos, na contratação de vagas afirmativas e de pessoas que vivem à margem do que seria respeitoso, justo, ético. Da não possibilidade de muitos, de fazer parte de um mercado que requer skills diferenciados, conhecimento de línguas, experiencias internacionais, pós, especializações, MBAs, equilíbrio emocional, facilidade de relacionamento interpessoal, resiliência, formação sólida numa escola premium e trabalhar até ou além do seu limite, que pode gerar Burnout e depressão.
A pressão, com 13,4% de pessoas desempregadas já traz um componente que afeta diretamente a Hierarquia de Maslow, onde parte significativa desta parcela se volta para a base da pirâmide, para as necessidades básicas e, estas, não podem ser alijadas do processo de crescimento e de desenvolvimento das nações.

A McKinsey prevê que 400 milhões de postos de trabalho desaparecerão em todo o mundo num período de 05 anos. E neste cenário de mudanças constantes, numa velocidade desconcertante, como oferecer oportunidade de desaprender o que não serve mais, aprender novas habilidades, se manter competitivo, e propiciar pão na mesa de tantos trabalhadores?

A agricultura 4.0 está trazendo benefícios tangíveis, agilizando processos e melhores informações para tomada de decisões mais assertivas, gerando mais alimentos, a ponto a previsão da meta de 300 milhões de toneladas de grãos de 2030 ter sido antecipada para 2025.

Mas precisamos ter uma política – de fato – de inclusão. E, que não seja a de apontar o dedo para que o governo ou a sociedade privada o façam. É um trabalho colaborativo, necessário e urgente.

Ter um olhar diferenciado com os pequenos e micro produtores que necessitam de “poder de fogo”, para não serem expulsos de seu “ganha pão”, devido à falta de capacidade de competir em igualdade de condições, tornando-os mais uma estatística, mais uma família de migrantes que vão para a “cidade grande” em busca de oportunidades ou de sobrevivência.

É necessário que sejam competitivos diante desta nova realidade de talhões mapeados, padrões de identificação de insetos georreferenciados, uso de drones para aplicação de produtos fitossanitários para combater em “reboleiras” espécies de plantas invasoras.

Mais que capacitá-los, que já é um grande desafio quando afirmamos que no país há mais de 5,1 milhões de propriedades rurais, precisamos oferecer equipamentos, novos processos de gestão que permitam se manterem na terra que durante décadas foi a base para se manterem no campo, aprimorar o que sempre fizeram como plantar arroz, feijão, rigo, mandioca ou complementar, por exemplo, com produtos de nichos, de maior valor agregado para pequenas áreas, apoio na minimização de “pedágios” na cadeia de distribuição de alimentos e acesso a crédito.
Precisamos, diante da constatação de tanto desperdício de alimentos que gira em torno de 30%, ter outro olhar diferenciado para que desempregados tenham a oportunidade de ter a dignidade de ter um prato de alimentos ou um teto para não ficar ao relento.

Hoje, quando olhamos para esta tímida retomada de emprego no Brasil, observamos que o crescimento não significa propriamente que seja fruto de uma estratégia de crescimento estruturada, de novas oportunidades de emprego, que passa por temas tão complexos como a capacidade de serem competentes, de operarem máquinas sofisticadas, da oportunidade de aprenderem o que é fundamental para o cumprimento daquela tarefa e, no caso dos micros e pequenos produtores, de ter acesso a uma assistência técnica de qualidade e alinhada à nova realidade. Infelizmente, 70% do crescimento no trimestre atual frente ao trimestre anterior, derivou do trabalho informal.

Chopra diz que “Os seres humanos têm uma capacidade notável de se adaptar às circunstâncias externas. Como disse Darwin, o fator mais importante para a sobrevivência não é a inteligência ou a força, mas a adaptabilidade”.
Com mais de 20 milhões de famintos, com uma parcela significativa da população sem a competência necessária para ocupar as vagas quando surgem, necessitamos reavaliar este modelo, este momento, e fazer um exercício de voltar para dentro, para deixar expandir nossos bons sentimentos, deixar aflorar a base do sentimento humano que é a solidariedade, que deriva da empatia, que origina do amor.

E aqui, estou falando não apenas para as pessoas enquanto cidadãs, mas também para empresas. Estou falando sobre estruturar campanhas para tornar a sobrevivência, as necessidades básicas um ato de cidadania e compaixão. Para as empresas, fica a reflexão que lucrar sim, mas alinhada à nova ordem.

Há momentos na vida de uma sociedade, e sinto que estamos neste momento, que não dá para discutir se fazer caridade, é arcaico e não resolve a causa raiz, mas, tenho a certeza que, ser protagonista de uma campanha de coleta de alimentos, de cestas básicas, irá saciar a fome de algumas dezenas de pessoas, que podem ser muito mais, com o engajamento de outras empresas e da sua capacidade de capilaridade, evitando que um ser humano durma sem ter o que comer, ou um pai ou mãe se veja impotente diante da geladeira vazia.

O inpEV, durante estes dois anos de pandemia, fez da pandemia, alicerçada em uma forte governança de gestão de crises, de apoio psicológico, de regras rigorosas de distanciamento, de doação e uso obrigatório de máscaras, do uso de álcool em gel, de colocar toda a matriz em home office, realizar 02 campanhas de coleta de alimentos no evento mais significativo para a nossa organização, que é o Dia Nacional do Campo Limpo, que figura no calendário oficial brasileiro, onde, até antes da pandemia, tínhamos propiciado que mais de 1 milhão de pessoas da comunidade do entorno, das escolas fundamentais e do ensino médio, da academia, técnicos, agrônomos, poder público, conhecessem o conceito de economia circular na prática.

Fizemos um apelo a todos os stakeholders e conseguimos nestes dois anos, mais de 380 Ton de alimentos.

É necessário diante desta crise, das diferenças abissais de acesso a recursos, dos preços nas alturas de commodities que são alinhadas aos preços internacionais que aumenta o preço de combustíveis, que colabora com o preço final dos alimentos, dos frangos, suínos por exemplo, em parte fruto da grande desvalorização da nossa moeda, que simplesmente possamos, como diz Santa Tereza de Calcutá: …Ir à procura de pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade.”

Bora agir?

Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV

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