Formamos opiniões que podem interferir na vida das pessoas ou das organizações porque, nesta percepção “fast food”, acabamos replicando o que ouvimos ou o que entendemos como verdadeiro. E haja “fake news” e “Efeito Manada” para gerar opiniões e ações fruto desta “única verdade”.
Definitivamente, nossa vida não pode ser gerida sem que tenhamos valores fortes e conhecimento. Que os ensinamentos vieram dos muitos erros que nos ensinaram mais que os acertos.
E hoje vivemos tempos incertos. O que deve forçar nossa capacidade de resiliência e empatia, para sobreviver nestes novos cenários.
Vide as chuvas torrenciais que caiu sobre o litoral norte do Estado de São Paulo, da seca que há 03 anos atinge o Rio Grande do Sul, da elevação de custo para obter qualquer parafernália eletrônica como um celular, devido a pandemia e pela guerra da Rússia, dos aumento de custos de fretes internacionais, até a inflação do arroz com feijão de cada dia…… E em tudo aparece o viés da intolerância, de agressão, da população sem opção, que se espreme nos morros da vida, impermeabilizando o solo pela retirada das matas e gerando novos riscos de catástrofe, como uma tragédia anunciada sem ações para solucionar ou mitigar estes riscos.
Neste universo de bombardeio de informações, vemos pessoas afirmando que a agricultura é prejudicial, sem entender se o mundo consegue viver sem estes produtores que são verdadeiros empreendedores e, graças a sua capacidade de produção, são estabilizadores de preços dos alimentos. Que é necessário avaliar quantos agricultores cumprem com a legislação ambiental, seja através da manutenção das reservas legais ou de áreas de preservação permanente e quantos % causam realmente desmatamento e grilagem de terra. Dado da Embrapa reporta que a vegetação nativa é mais preservada no interior de imóveis de agricultores (20,5% do Brasil) do que em todas as unidades de conservação reunidas (13%).
Não avaliamos se este produtor de alimentos utiliza plantio direto, que cobre o solo com palhada e não permite que haja erosão laminar, cria um microssistema mais equilibrado, além de tornar a cultura mais resiliente a um período de veranico, pois protege da evaporação da água acumulada no solo. Que este sistema de plantio aumenta o estoque de carbono do solo, mitigando a liberação do gás carbônico para a atmosfera.
Que através de boas práticas e tecnologia como o uso de plantio direto, alcança elevados índices de produtividade que significa produzir mais numa mesma área, não gerando mais desmatamentos.
Um ponto fundamental nesta luta por uma agricultura voltada à descarbonização, é a adoção de um sistema de compliance ambiental, visando, não apenas manter esta atividade que é fundamental para uma população que chegará a 9,7 bilhões de habitantes em 2050, além de manter a competitividade deste setor, seja pela negociação de CO2, como pela credibilidade que irá “blindar” este setor, frente às pressões mundiais.
Inevitavelmente, necessitaremos de alimentos para viver. E esta visão passa pelo entendimento que o leite, o frango, o ovo, o porco, o boi, o peixe cultivado, vive de culturas chamadas de commodities, utilizadas como fonte de alimento (rações) como a soja e o milho.
Que para nos locomover temos o privilégio de ter um combustível de fonte renovável graças à cana de açúcar ou milho.
Esquecemos de colocar nesta equação, que somos nós que afetamos o meio ambiente. Que, como “Homo Urbanus”, afetamos o bioma, através das nossas casas que foram construídas onde, no passado, era área de mata. Dos prédios com ar-condicionado onde trabalhamos, do caminho ao trabalho onde utilizamos um veículo que emite CO2. De shoppings que ocupam áreas para nosso conforto e como um “templo” de compras.
Analisando o crescimento desordenado das grandes cidades, há como consequência desta falta de um programa, de áreas sendo desmatadas para moradia dos menos favorecidos. Há um exemplo recente como o município de Embu das Artes que foi o que mais desmatou a Mata Atlântica na Grande São Paulo em 2022, ficando em terceiro lugar se consideradas todas as cidades do Estado de São Paulo. Foram perdidos 14,3 hectares (Fonte: Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 31/01/23).
Quando olhamos para o tamanho da nossa agricultura, parece ser muito pouco estes hectares desmatados, mas a elevada densidade populacional, torna estas áreas uma bomba relógio que podem gerar vítimas, pois normalmente estão em morros que podem gerar riscos potenciais de uma tragédia anunciada.
Para alimentar os bilhões de pessoas, precisaremos não só de mais alimentos, mas propiciar acesso aos alimentos e, continuar a produzir mesmo com as ameaças climáticas, de forma responsável.
Para isso, visando evitar o êxodo dos micros e pequenos produtores para os grandes centros, precisamos trabalhar para a manutenção deste pequeno produtor em sua área rural produzindo alimentos de qualidade para sua subsistência e comercializando o excedente, gerando renda e fixando o homem do campo onde ele tira o sustento para sua família evitando que se torne uma estatística nos centros urbanos.
Hoje falamos muito de alimentos orgânicos, e para isso, sem qualquer viés ideológico, é necessário que a população tenha condição financeira para adquiri-los e, a grande maioria da população não tem acesso, pois são mais caros que os de produção convencional, privilegiando uma elite com recursos para adquirir estes alimentos “premium”. Basta olhar para os mercados e sacolões e avaliar quanto de valor agregado está embutido nos preços quando adquirimos um produto orgânico (Exemplo: Tomate Italiano orgânico R$ 19,80/kg e o tomate italiano não orgânico R$ 11,99/kg (diferença de + 65,1%). Fonte: Oba Hortifruti 24/02/23).
Somos mais de 33,1 milhões de pessoas que vivem na insegurança alimentar apenas no Brasil, que não sabe se terá alimentos na mesa todo dia.
Um outro lado desta equação, que é uma verdade, quando colocamos uma mesma cultura num ambiente, inevitavelmente há perda de biodiversidade naquele local, gerando a necessidade de mais áreas para produzir a mesma quantidade de alimentos se não houver um controle de pragas e doenças devido ambiente propício que facilita a disseminação de pragas e doenças, pois há “alimentos” em fartura que é a própria cultura estabelecida, tendo a necessidade de controle destes invasores como, por exemplo, as lagartas e doenças como a antracnose.
A solução deve sempre contemplar a nossa capacidade de produzir em escala, em produzir com qualidade, dentro das melhores práticas agronômicas e trabalhar numa certificação eminentemente técnica que comprove a qualidade do que já produzimos hoje, sem disseminar inverdades da contaminação e dos riscos de consumo destes alimentos. É um desserviço, pois gera uma insegurança em uma parcela significativa da população, que causa ansiedade, angústia e um sentimento de impotência, por não ter acesso aos alimentos dito saudáveis.
A solução passa pela capacitação e conscientização do pequeno produtor. Significa que estes, estão mais expostos a potenciais intoxicações por produtos fitossanitários, seja pela não compreensão dos riscos, seja pelo não uso correto de EPIs e desconhecimento de normas e legislações sobre o tema.
Os grandes produtores cumprem com a NR 31 com foco na segurança e saúde no trabalho e fazem uso do MIP – Manejo Integrado de Pragas onde entendem o conceito de “nível de controle” ou “nível de dano econômico”, mas como garantir que isto possa ser aplicado no pequeno produtor?
Nestes grandes produtores, a pulverização ocorre com verdadeiras máquinas no seu estado da arte, onde o aplicador fica numa cabine longe do produto, com cabine pressurizada, com GPS, som e ar-condicionado e aquecedor.
Outro enfoque importante, é utilizar de forma adequada o que a iniciativa privada ou o governo através da área de agricultura como a de extensão rural podem oferecer. Não é a quantidade e sim a qualidade da fiscalização e do enfoque sempre priorizando a educação, o acesso à informação destes micros e pequenos produtores, que não tem ou tem pouco apoio do ponto de vista de assistência técnica.
E isso é fundamental se queremos oferecer a oportunidade dele se manter na sua terra: oferecendo conhecimento para gerar produtividade e se manter competitivo no mercado. Viabilizar equipamentos tecnológicos que não tirem a competitividade deste pequeno produtor e não fique refém de equipamentos obsoletos frente à revolução tecnológica de hoje. Há mais de 5 milhões de propriedades rurais e 2,5 milhões de agricultores que fazem uso de agrotóxicos, e é preciso unir cada vez mais as ações da iniciativa privada com o poder público.
Um bom exemplo é a ONG Solidaridad, através do projeto “Fruta Resiliente” onde pequenos produtores de laranja estão recebendo assistência técnica gratuita financiado por grandes indústrias de suco, com o intuito de manter esses agricultores na atividade. Gera uma cultura “ganha – ganha”.
Outro bom exemplo, é a parceria entre Senar e Croplife Brasil para capacitar instrutores para aplicação correta e segura de defensivos.
Infelizmente há formadores de opinião que utilizam como argumentos, dados da década de 70 e 80 usando, como exemplo, produtos que já foram banidos como os clorados, mercuriais e depois os fosforados, que tinham um risco muito maior de gerar intoxicação e que foram proibidos, visando tornar vilão um insumo que auxilia na produção de alimentos para mais de 800 milhões de pessoas. Ou seja, hoje temos mais de 214 milhões de habitantes no Brasil e produzimos alimentos para 800 milhões.
A causa raiz está no uso, no manejo ou na aplicação sem a proteção, sem aplicar os conceitos de boas práticas agronômicas?
A causa raiz está na falta de recursos da população para ter acesso aos alimentos. E aí vem a importância de uma bolsa família, que não é um “medicamento salvador”, mas é uma etapa que mitiga a fome.
Hoje, graças a evolução do mercado e uma governança para liberação de novos agrotóxicos, que envolvem 03 áreas do governo federal, além de haver, por parte dos fabricantes de novos princípios ativos, a busca por produtos de menor toxicidade, porque é uma exigência deste novo mercado global e uma busca por resultados diante de resistência de plantas daninhas, insetos, doenças.
A visão não é proibir. A visão é exigir que se cumpra o que está na lei. A visão é educar cada vez mais, utilizando, por exemplo, dos mais variados artifícios que a tecnologia nos oferece hoje. Para isso necessitamos suprir os mais de 70% de agricultores a terem acesso à conectividade.
O enfoque não pode ser apenas econômico, mas sim, pela importância de disseminar conhecimento, de ser inclusivo tanto para os grandes, mas principalmente para o pequeno produtor, que envolva uma capacitação e conscientização que traga todos os stakeholders, desde os veículos de comunicação, governo, fabricantes e distribuidores, além dos próprios consumidores.
Este mesmo setor, muitas vezes criticado, é referência mundial na logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos, demonstrando que pode sim, atuar de forma exemplar na destinação de embalagens que, se não fosse destinado, mais de 700 mil toneladas ficariam entre 400 a 450 anos contaminando o meio ambiente até ser degradado.
Não podemos demonizar os produtores que utilizam tecnologia, buscam produtividade, trabalham para gerar empregos (agronegócio brasileiro emprega mais de 19 milhões – Base: CEPEA 2022), geram receitas, alimentos em abundância e de qualidade.
Este tênue equilíbrio, principalmente neste período de aquecimento global, está na mão dos produtores, que investem para produzir, que reinvestem mesmo quando há frustração de safra, para oferecer o pão nosso de cada dia.
E não podemos esquecer da ciência, que necessita vencer a corrida contra o aquecimento global, adaptando variedades para enfrentar esta mudança de clima, chuvas em excesso ou seca, fruto, da influência de um La Niña (que hoje já não está atuando) ou de um El Niño (que pode causar chuvas irregulares no MATOPIBA e MT na próxima safra).
Outra frente que precisamos nos conscientizar e avaliar como consumidor é do porquê desperdiçamos tanto alimento, se há tantos famintos e tantos sem acesso?
Segundo dados do IBGE, 30% dos alimentos produzidos no país acabam sendo jogados fora. Com isso somos o 10º país que mais desperdiça alimentos no mundo, o equivalente a 46 milhões de toneladas de alimentos por ano.
Esse desperdício ocorre nas várias etapas desta cadeia.
- Na produção, por equipamentos mal calibrados utilizados no plantio, colheita, transporte e eventos climáticos adversos.
- Na distribuição, onde são descartados alimentos que não atendem ao padrão estético que buscamos (basta pensar se numa gondola, pegamos uma maçã vermelhinha ou aquela outra com cores mais pálidas, ou um tomate bipartido, uma cenoura com “duas pernas”. O que iremos escolher?).
- No consumo, onde realizamos compras acima do que precisamos, ou jogamos fora porque está maduro demais, ou até por não colocar na geladeira para consumir em uma outra refeição. 60% do desperdício vem do consumo nosso de cada dia.
E isto deve ser algo que é imperativo mudar. Precisamos entender que uma fruta imperfeita tem a mesma qualidade nutricional de uma perfeita. Felizmente já há nichos de mercado onde estes alimentos não estão sendo desperdiçados, mas comercializados com preço mais atraente, mas é incipiente frente aos volumes comercializados.
Não há mais tempo para usar da desculpa que temos que ensinar a parcela menos favorecida e menos preparada a pescar. Pessoas nesta situação não tem nem a “vara” para pescar. Imagino que nestes milhões de pessoas carentes há apenas o sentimento de impotência e de baixo autoestima por não ter um prato de alimento para dar a seus filhos, para sua família.
Alijando esta parcela da sociedade é mantê-las neste limbo onde não gera a perspectiva de melhorar seu padrão de vida. E esta exclusão, leva esta população que, por medo do estigma, da discriminação, acaba pagando mais caro devido receio de não querer ir às grandes redes de supermercados ou centros de consumo, gerando o que se chama de “pedágio social”, termo cunhado pelo Professor Yan Vieites, coordenador do centro de pesquisas comportamentais da Ebape. Este grupo, acaba pagando mais caro e comprando na comunidade onde reside.
Se cada organização fizer sua parte, o resultado vem. Mas para ser duradouro, é necessário que haja uma direção onde todos os esforços se encontrem, gerando a sinergia necessária para derrubar estes “muros” da desigualdade social. E é necessário que haja um protagonista que possa articular programas e ações. Significa que há a necessidade de ter um programa com começo, meio e fim. Com o papel de cada participante, dos prazos a serem cumpridos, de recursos a serem disponibilizados, e de uma forte campanha de educação para esta sociedade que julga pela cor da pele, pela roupa que usa, pelo carro que tem….
O que não podemos fazer é “social washing”.
Não sei o que podemos fazer de concreto, mas uma coisa eu sei: precisamos começar. Precisamos dar força à empreendedores sociais, como o GRAACC, Gerando Falcões, CUFA, Grupo Reinserir, exemplos externos como o Oneworld Health, Grameen Bank, Fonderie 47 entre outros.
É imperativo espelhar em modelos inseridos dentro do conceito ESG (sigla que corresponde às práticas ambientais, sociais e de governança de uma instituição) e das ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Entender o efeito perverso da concentração de riqueza e investir na nossa capacidade de agir, de pressionar, de dar voz aqueles que não tem a oportunidade, de criar condições e “habitat” amigáveis e inclusivos deve ser a missão deste novo mundo globalizado, visando gerar novas oportunidades e permitir que estas novas gerações sejam mais capacitadas, mais produtivas e mais felizes.
O tempo é hoje. As ações são para agora. Não podemos mais agir segmentados e desconectados. Não há mais espaços para processos que não sejam abrangentes, que não envolvam todos os stakeholders para redirecionar esforços.
O Sistema Campo Limpo só se tornou referência mundial e destina mais de 90% de toda embalagem vazia colocada no mercado porque todos os envolvidos (agricultores, revendas e cooperativas, indústrias e poder público) se uniram para uma causa maior. Que além da lei, houve um forte trabalho de educação e conscientização, que levou o Sistema Campo Limpo a ser reconhecido pela ONU por meio do UN DESA (Departamento das Nações Unidas de Assuntos Econômicos e Sociais) como uma boa prática de disseminação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, onde atuamos com mais de 2,3 milhões de estudantes do 4º e 5º ano do ensino fundamental, dentro dos parâmetros curriculares nacionais do MEC.
Não é o viés ideológico que irá salvar o meio ambiente. Será o pragmatismo de ações inclusivas e coordenadas. É sair desta percepção efêmera do certo e errado.
”…. Se você quer transformar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior. Estas atitudes se refletirão em mudanças positivas no seu ambiente familiar. Deste ponto em diante, as mudanças se expandirão em proporções cada vez maiores. Tudo o que fazemos produz efeito, causa algum impacto…”
Dalai Lama
Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV
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