Produzir solidariedade

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Produzir solidariedade

A vida brota de forma inesperada, desde uma polinização causada por um inseto tão pequeno como a abelha, que num tempo de 03 horas (preferencialmente das 09 da manhã às 12 horas), na linguagem técnica, ela faz a transferência de grãos de pólen das anteras de uma flor para o estigma.

Até mesmo na soja, a colocação de colmeias de abelhas na lavoura pode elevar a produtividade das plantas além de melhorar a qualidade dos grãos. E, não subestimando o benefício, ao aumentar a produção, são necessárias menos áreas a serem utilizadas para o plantio e mais alimentos para a população, sem a necessidade de desmatar.

Mas, esta mesma vida, pode causar prejuízos como no caso da lagarta que passa por diferentes fases. 03 dias na fase de ovos. De 12 a 20 dias na fase larval. De 07 a 09 dias na fase de pupa e, de mariposas de 1 a 2 semanas. Aí faz a oviposição, e como sabe que precisa sobreviver, tem a média de 300 a 1.000 ovos. Quando se pensa na Helicoverpa o ciclo é mais curto, necessitando realizar o Manejo Integrado de pragas (MIP).

Quando pensamos numa cultura de milho pode-se ter o mesmo conceito. Enquanto plantio, alimenta pessoas e animais, produz etanol e DDG, mas, se estiver presente numa cultura de soja, este mesmo pé de milho, se torna uma concorrente por nutrientes, dificultando o crescimento da soja e se torna uma planta daninha (planta não desejada) a ser combatida.

Esta dualidade de nascer e morrer, de lutar pela vida, de criar mecanismos para aumentar a probabilidade de sobreviver é algo tão inerente a qualquer ser vivo, que nos envolve diretamente e diariamente.

E, neste ambiente de grande competição, infelizmente, como prega a Lei de Darwin, há uma luta pela vida, onde aquele que sobrevive não é o mais forte, mas, sim, o que melhor se adapta às condições daquele bioma. 

Vale para insetos, para doenças, para plantas, pássaros, como para nós seres humanos.

Diante deste ambiente cada dia mais ameaçado, e que muitas vezes nos leva a acreditar em maldades ou força do destino, não é mais do que o desequilíbrio causado em grande parte por nós mesmos consumidores, por não ter a consciência e, a partir dela agir para mudar nosso padrão de consumo, da necessidade de mudar nosso modo de vida tão perdulário (para uma minoria privilegiada), diminuir nossa necessidade de ter – quando é possível – e aprender a olhar de forma menos egocêntrica, mais solidária.

De esperar das ditas “autoridades” serem competentes em cumprir com o compromisso de não segregar em “guetos” sociais estes menos favorecidos, mas promover a inclusão através de acesso a saúde, à educação, à cultura e à alimentação.

Saudade a gente “mata” com a presença ou com a doce e triste lembrança, que é a “presença” diante do inevitável distanciamento.

Emoção a gente sente ouvindo uma música que remete a momentos importantes de nossa vida ou vivenciando momentos únicos, importantes, marcantes.

Mas a fome não!

A fome tem a característica de matar aos poucos, tirando a autoestima, onde a busca desesperada por qualquer tipo de alimento, até de restos de alimentos já degradados numa lata de lixo se torna a única forma de viver mais um dia.

Depois, neste ciclo perverso, nos transforma em animais que, sem acesso aos insumos básicos, nos fragiliza, tirando aos poucos o brilho dos olhos, a esperança, como folhas que caem de uma árvore durante o outono……

E, quantas vezes passamos por estas “pessoas invisíveis”, como se fossem seres com capacidade de transmitir doenças infectocontagiosas e que devem ser mantidas à distância, sem entender a dor que este ser está vivendo. Talvez a pior delas, ainda mais se for a incapacidade de colocar na mesa, o mínimo de alimentos para seus filhos.

E piora ainda mais, quando não teve condições de se preparar de forma adequada para o mercado de trabalho, não tem “diplomas” de faculdades e de pós-graduação, vivendo, quando pode, de “bicos”.

Paradoxalmente, jogamos fora alimentos como uma banana, uma laranja, porque compramos em excesso, porque compramos por impulso, e elas ficam enrugadas, velhas, apodrecendo esquecidas num porta frutas.

Guardamos restos de comida em potes que são deixados na geladeira e depois vão para o lixo. Mas, para nós privilegiados, há casos que pagam uma fortuna por uma “experiencia” num restaurante especial, com direito a reserva, à luz de velas, para celebrar uma data especial, ou uma viagem inesquecível.

E não há nada de errado em comemorar a vida, pois ela é apenas um instante e tem de ser celebrada. Mas não podemos esquecer que podemos também ajudar o próximo, e isto não é excludente.

Podemos ser provedores de algo que sacia, como o maná que caia todo dia no deserto, sem variações de temperos, sem sabores exóticos, mas com a eficiência de gerar saúde para que aquele povo pudesse seguir em frente.

Poderia falar de empatia, mas diante desta realidade que todo dia afeta milhões, quase na casa de bilhão, que, apesar de recordes de produtividade devido o uso maciço de tecnologia, fica em mim uma dúvida: o que significa uma empresa que é reconhecida pelas boas práticas de ESG?

O que significam as ODS? Lendo apenas uma delas, que é o objetivo 8 que significa promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos. O mundo que busca qualidade de vida, que sonha com trabalho de 04 dias, tem esta preocupação?

Qual a verdade de campanhas maravilhosas que celebram ações inclusivas? São “troféus”, veiculações em horários nobres, que atingem o objetivo de agregar valor reputacional e financeiro, mas não vejo a iniciativa em criar um grande programa em escala, que possa atingir a maior quantidade possível de famintos, de forma estruturada, sinérgica, com periodicidade certa, usando, por exemplo, o S de social do ESG,  para quem clama pela chance de ter um prato de comida na mesa.

“A messe é grande e os trabalhadores são poucos.”

Sei que não tenho forças para influenciar pessoas, mas posso colocar minha indignação, falar e agir em nome de algo que poderia ser chamado de solidariedade.

Mesmo com a aparência de algo midiático ou demagógico, acredito que estas ações, são como vírus do bem, que crescem e se multiplicam. Como a lagarta que, para sobreviver, produz muitos ovos, pois sempre terão inimigos naturais, biológicos ou químicos para combatê-las.

Mas queria que todos os corações que estão lendo este artigo, entendesse que solidariedade é igual a amor em prática. Mas é um amor maior. É o amor pelo próximo. É o amor que não cobra. É o amor que gera gratidão. É o amor que nos faz acreditar que as pessoas não estão nos enganando quando estão pedindo nos faróis da vida. Se for, elas terão de responder para a sua consciência e, não será você quem estará agindo errado em oferecer ajuda e, diferente do que prega os manuais de solidariedade corporativa, uma blusa que não usamos, um pacote de arroz ou de absorvente, fará toda a diferença para quem precisa.

Temos que parar de pensar que esmola não engrandece ninguém. Esta esmola, é importante e ajuda esta população a ter mais um dia de comida, e isto, é o mínimo que nossa consciência pode fazer.

Nestes dias de reflexão que estou passando, queria compartilhar algo que descobri e me faz feliz: ser bom traz benefícios mútuos, tanto para quem faz como para quem recebe. E, ao descobrir a alegria verdadeira da doação, da entrega, de fazer algo verdadeiramente bom, transforma nosso dia e nossa forma de encarar a vida e o próximo, tornando a caminhada mais leve.

E, se tiver o poder em uma organização de estruturar trabalhos voltados à solidariedade, menos pessoas terão tanta dor, nem passarão tantas dificuldades.

Não importa que seja apenas uma pequena ação, mas precisamos não nos ocultar atras da desculpa, que temos que ensinar a pescar.

Tenho a convicção que somente juntos, sociedade, poder público e para mim, de forma especial, acreditar que as pessoas são boas, que poderemos colaborar com aqueles que não tem nada e nem conhecemos, mas, com o sentimento de piedade que habita em nós, seremos sensíveis e resolutivos. E isto é uma escolha de cunho muito pessoal.

Que tenhamos a agricultura 4.0, que possamos ser cada vez mais produtivos, mas vamos acrescer além de drones, redes interconectadas, variedades melhoradas de grãos, uso intensivo de inteligência artificial, equipamentos semiautônomos, criar uma conexão verdadeira com nosso próximo, repartir o muito que o suor de cada um produziu com nosso necessitado irmão desconhecido, pois o mundo infelizmente não distribui de forma igualitária o acesso a alimentos, à saúde emocional.

Que possamos ter ouvidos para os pedidos de socorro de uma Ana, um José, uma Andréia, um Pedro, uma Raquel que podem ter fome de comida ou de dignidade.

Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV

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