Grito de Alerta

É fato que o “mundo” precisa atuar para não permitir que o aumento de temperatura ultrapasse 1,5 OC, sob pena dos eventos catastróficos ficarem ainda mais recorrentes
Share on whatsapp
Compartilhe no WhatsApp
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email
Share on telegram
grito de alerta

Passados 21 meses somatizando os efeitos da pandemia, uma experiencia única em minha vida, vivenciando o distanciamento social, a obrigatoriedade do uso de máscaras, a volta da inflação que corrói salários e tira empregos e alimentos, estava diante da TV e assisti ainda mais entristecido com a notícia dos tornados fora de época nos EUA, principalmente no Kentucky, além de outros 04 Estados que deixaram pelo menos 100 mortos, sendo considerado como um dos piores eventos envolvendo esses fenômenos meteorológicos na história americana e num período totalmente atípico para a severidade e quantidade de eventos que ocorreram.

Logo depois, vejo notícias sobre as tempestades que estavam acontecendo na Bahia, onde morreram pelo menos 07 brasileiros, mais de 70 mil atingidos e 3,7 mil desabrigados.

Para completar, lembrei que neste ano, tivemos a pior seca dos últimos 90 anos, afetando principalmente culturas como a cana de açúcar, milho e café com prejuízo aproximado de R$ 60 bilhões, gerando inflação devido aumento de preços em toda a cadeia produtiva e em especial, nos setores de rações para aves, suínos e bovinos, num momento que temos mais de 21 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar.

E, fiquei pensando sobre as ligações entre estes fatos que infelizmente geraram vítimas. Vem de ações das queimadas? Do desmatamento na Amazonia? E como consequência, na maior emissão de CO2 gerando o aquecimento global (caso ocorrido nos EUA onde, mesmo sendo época muito fria, no Tennessee, a temperatura chegou a 26OC, quando o normal seria algo em torno de 11 OC)? Do efeito do La Niña na seca que atingiu a região centro sul do Brasil, seguido de uma forte geada no primeiro semestre deste ano e que nesta safra está se repetindo em menor dimensão? Do desmatamento da Amazonia que afetam os “rios voadores” e que estão causando uma diminuição de água estocada nos nossos reservatórios, que necessitam religar as termelétricas com todas as suas consequências e um déficit hídrico no solo, que compromete a produtividade num momento de necessidade de mais alimentos? Do consequente aumento da fome entre a população mais carente e da lei da oferta e da procura se fazendo prevalecer?

Se a natureza precisa de tempo para se adaptar às transformações, estes fatos, que não podemos mais chamar de exceções, não permitem que haja tenha tempo hábil para a natureza ir se “moldando” à esta nova realidade.
Como parte da solução, vejo o esforço de cientistas, do uso da tecnologia que ajuda a acelerar processos e gerar inovação, seja desenvolvendo variedades de plantas mais tolerantes à seca, com o uso da biotecnologia que confere, por exemplo às plantas, a capacidade de resistir a determinadas lagartas via Bt.

Vejo a consciência de produtores rurais que, através da disseminação do uso do plantio direto, que gera a diminuição da temperatura média do solo, que diminui a evaporação de água do solo, além da própria cobertura da palha e não revolvimento do solo, que reduz a emissão em até 40% de CO2 na atmosfera pois fica fixada no solo, na palhada e nas plantas. O plantio direto, gera também o benefício de deixar a terra para os filhos da terra, evitando a erosão laminar, melhorando as qualidades do solo com atividade biológica mais acentuada, evitando a formação de camadas compactadas, devolvendo ao solo parte dos nutrientes via palhada.

Mas, diante desta batalha, desta cruzada da ciência contra as consequências das inconsequências do homem, quem levará a melhor? Com a pandemia, aumentou o número de famintos, houve comprometimento de produção de vários insumos, aumento do barril do petróleo, gerando aumento dos custos logísticos, tornando produtos mais caros e, com a economia fraca, devido perda de renda, vieram também as demissões com incremento ainda maior de perda de receita, num círculo que se retroalimenta.

Diante da velocidade e do excesso de informações, fake news, cada vez mais refletimos menos, aprofundamos menos em temas tão cruciais como a segurança alimentar. E, infelizmente, podemos, seja por um viés político, uma “meia verdade contada muitas vezes”, tornar soluções em problemas e vice-versa.

É fato que o “mundo” precisa atuar para não permitir que o aumento de temperatura ultrapasse 1,5 OC, sob pena dos eventos catastróficos ficarem ainda mais recorrentes.

Acabamos de sair da COP 26 em Glasgow com esta certeza, mas, quem é o “mundo”?

Temos que entender que o “mundo” vai além do conjunto de nações, que somos cada um de nós, que precisamos sair do papel de expectador diante dos especialistas e nos tornar protagonistas. Afinal de contas, contribuímos de forma ativa com este aquecimento, sendo como consumidores de ferros de passar roupas, chuveiros, geladeiras, máquinas de lavar, aparelhos de ar-condicionado, refrigerantes em embalagens PET, bandejas de isopor, sacolas oxibiodegradáveis e todas as outras facilidades que necessitamos para nosso bem-estar.

Mas, estamos conscientes, por exemplo, em maximizar o uso destes produtos, tomando um banho mais rápido, passando toda a roupa de uma vez, em adquirir produtos com selos que atestam a melhor eficiência dos equipamentos relacionados ao consumo de energia, em separar nosso lixo e consumir menos, de forma mais consciente, em buscar e cobrar dos fabricantes qual o destino ambientalmente correto destes aparelhos, em adquirir produtos de empresas que estão realizando a economia circular?

Como exemplo de economia circular, temos a Campo Limpo Reciclagem e Transformação de Plásticos S/A que, além de produzir embalagens vazias de agrotóxicos com certificação UN a partir da reciclagem destas mesmas embalagens, fecha o ciclo de vida (do berço ao berço), além de possuir certificação Carbon Free.

Ao avaliar as emissões de CO2, um estudo constatou que os 10% mais ricos do mundo respondem por 47,6% de todas as emissões globais de CO2 (31 ton./pessoa/ano), enquanto os 50% mais pobres emitem 12% do total de emissões (1,6 ton./pessoa/ano).

Neste ano, já liberamos mais de 50 bilhões de ton de CO2 (média de pouco mais 6,5 ton./pessoa/ano), mas os que irão sofrer os maiores impactos serão os menos favorecidos. (Fonte: “Desigualdade Mundial” de Thomas Piketty).
E o que podemos fazer para mudar isso?

Este é um tema que gera um profundo desconforto e, mesmo não tendo uma visão clara sobre as respostas, há pistas e sabemos que é necessário um olhar profundo para todo o cenário, principalmente para o que não está visível, visando prospectar e entender integralmente as interconexões e ações a serem realizadas para combater a insegurança alimentar, a poluição do meio ambiente.

Prospecção esta que passa por entender do porquê estamos nesta situação, da fragilidade dos processos de produção de alimentos, muito voltados à “sorte” das condições incontroláveis de chuva, horas de sol, custo de produção versus lucro. Do porquê de tamanha desigualdade onde há uma pandemia de obesos na America do Norte e famintos morrendo de fome na África subsaariana. De identificar as causas raiz deste processo que segrega e penaliza os menos favorecidos. Da tecnologia que gera uma competição desigual entre os diferentes players de diferentes países e PIB. Das diferenças de acesso ao conhecimento, passando pela falta de saneamento básico que mata milhares de crianças anualmente. Apenas em 2019, no Brasil, foi a causa de mais de 273 mil internações (Fonte: Instituto Trata Brasil).

Utilizando o conceito de empatia, que é mais do que se colocar no lugar do “outro” e sim, SENDO o “outro”, podemos ampliar este conceito de “outro” como sendo “a natureza”, um ser senciente com todos os seus serviços ambientais, que torna possível a manutenção da biodiversidade, aqui incluído o homem, da manutenção das florestas, de produzir com base na produtividade e não no aumento de área, na proteção de mananciais, de manter a qualidade do ar, na compensação de emissão de CO2 via plantio de arvores ou aquisição de créditos de Carbono, do uso racional de água através de sistemas inteligentes como gotejamento, de pagamentos por serviços ambientais entre outras ações, visando manter de pé, biomas que são fundamentais para a manutenção do homem e das futuras gerações.

Este conceito de empatia mais abrangente, poderia ser chamado de “empatia sustentável”, onde, ao invés de apenas olhar e trabalhar as “dores” do outro, é entender no nosso coração, nas nossas atitudes, que é necessário atuar de forma estruturada, organizada, com apoio financeiro e muito conhecimento disseminado, cumprimento e criação de legislações adequadas, apoio da mídia, ações da sociedade organizada, influenciadores, poder público e de consumidores de todo o planeta para se colocar como parte da solução, não esquecendo que hoje, somos parte do problema.

Para transformar esta utopia em verdade, precisamos primeiro acreditar que é possível, ser persistente, investir em boa vontade e tecnologia, criar uma agenda comum prioritária e urgente, calcada na pressão popular, na certeza que não há outro caminho para mitigar o aquecimento global, estruturar políticas que beneficiam quem recupera áreas degradadas gerando produção, ter muitas Greta Thunberg e Vanessa Nakate que se empoderam do ideal da continuidade das espécies, pois estamos num momento em que a natureza de alguma forma irá continuar a existir, mesmo ferida, mas sem a garantia de que nós, seres humanos estaremos juntos.

Gostaria que este desabafo seja um grito de alerta utilizando a declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres no Dia dos Direitos Humanos (10 de dezembro): “…estamos numa encruzilhada devido a pandemia, às catástrofes climáticas e precisamos defender o direito de cada membro da família humana….”

Que neste Natal, todos nós “família humana”, recebamos o dom da consciência, da mudança de atitude, de olhar para o bem do próximo, como quando decidimos continuar a utilizar as máscaras protegendo aqueles que estão do nosso lado, gerando ações e experiencias onde – juntos – poderemos celebrar este lindo presente que é a vida…….

Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV

Leia outras notícias no portal Mundo Agro Brasil

Relacionadas

Veja também

“…Vamos trabalhar mais e mais próximos, para alcançar resultados e limitar o aquecimento global a 1,5 ºC até 2050, um desafio enorme e necessário” – Embaixador Britânico no Brasil, Peter Wilson
Sobretudo, necessitamos fomentar a agenda ESG, fazer da ODS 2 que trata de fome zero e agricultura sustentável uma realidade e acreditar que, de fato, tais mudanças podem ser um novo marco visando a prática da solidariedade
As empresas precisam ter a consciência que aplicar as boas práticas do ESG não é uma questão de opção, mas, sim, de sobrivência dos negócios
Em sua estreia como colunista do portal MAB, Mario Fujii, fala sobre o Sistema Campo Limpo, referência mundial para a logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas