Combater a fome com a compaixão

Se entendermos que a compaixão é algo inerente ao ser humano, poderemos utilizar deste amor, para ser uma pessoa que aprende o prazer de se doar, de aprender que na doação recebemos gratidão, pela capacidade de dizer sim
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Combater a fome com a compaixão

Ontem, indo para uma Paroquia e tendo que passar pelo centro de São Paulo, vi, além dos usuários de drogas da antiga Cracolandia que agora está espalhada, mães com filhos pedindo esmolas. Eram crianças que não sabiam se iriam ter algo para comer no fim do dia.

Fiquei muito triste, pois estava indo palestrar para casais e falar de amor em família, de fé, de persistência, de perdão…

Fiquei pensando se estas pessoas conseguem ter fé quando não tem nem a dignidade de poder se alimentar diariamente.

Buscando dados sobre isso, encontrei informações da ONU, onde a fome no mundo subiu para 828 milhões de pessoas em 2021. Isto representa uma alta de mais de 46 milhões desde 2020 e 150 milhões deste quando iniciou a pandemia de Covid-19.

Do lado da produção, a FAO estimou uma produção mundial de cereais em 2,8 bilhões de ton. (aumento de 0,8% em relação à produção de 2019 para 2020).

Novas estimativas de reservas mundiais no final das temporadas de 2022 sinalizam 856 milhões de ton., ou seja, 2,8% acima dos níveis iniciais. Confirmando estes números, as reservas mais o consumo, terminaria o período inalterado num nível de oferta relativamente confortável de 29,9%.

Mesmo com a ação do La Niña, a CONAB estima que deveremos atingir recorde de produção nesta safra de grãos de 2021/2022, com 272,5 milhões de ton., que representa um crescimento de 6,7% em relação à safra passada.

Por outro lado, a fome dobrou nas famílias com filhos menores de 10 anos, justamente aquelas que encontrei no caminho da paróquia, onde apenas 4 entre 10 famílias tem acesso pleno à alimentação (Fonte: Penssan 2022).

A fome quase dobrou na América do Sul desde 2015, enquanto no Caribe aumentou 2,2 pontos percentuais e na América Central 0,9 pontos percentuais.

Vi que o mundo e suas entidades representativas, tem buscado atenuar, mitigar este mal.

No dia 10 de julho deste ano, ocorreu o painel do ODS 2, de erradicação da fome e agricultura sustentável com o tema Virada ODS, com a participação da FAO, que trouxe um olhar que combater a fome é uma tarefa de todos. E, todos os setores necessitam ter o comprometimento e a participação.

Durante a pandemia, nós do inpEV que somos signatários do Pacto Global da ONU, juntos com todo o Sistema Campo Limpo, pela impossibilidade de ter eventos presenciais, realizamos uma forte campanha de coleta e doação de alimentos, arrecadando alimentos para 13.000 famílias, com o apoio de outras entidades e de setores que atuam na agricultura.

Mais do que celebrar o Dia Nacional do Campo Limpo que acontece todo dia 18 de agosto, e já ter envolvido mais de 1 milhão de participantes, o sentimento foi de ter oferecido dignidade.

Queria me ater no item que envolve a sociedade civil. Sem a pretensão de fazer um estudo elaborado para discutir este tema tão delicado, onde batemos recordes de produção e paradoxalmente de insegurança alimentar.

Lembrei daquela mãe e seus filhos e de tantas mães sem ter comida na mesa, ou comida de qualidade.
Me veio uma frase de Santa Tereza de Calcutá, que diz: “O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em ação”.

Vou me permitir utilizar uma palavra que talvez não seja comum, que é a compaixão. Palavra que vem do latim compassio, que significa partilhar o sofrimento de outra pessoa, ou entender a dor de uma outra pessoa e experimentar a tristeza e ternura por isso.

Se entendermos que este sentimento é algo inerente ao ser humano, portanto, natural e necessário para viver bem em sociedade, poderemos utilizar deste amor, para ser uma pessoa que aprende o prazer de se doar, de se permitir não ter medo de demonstrar suas emoções, de aprender que na doação recebemos gratidão, pela capacidade de dizer sim, quando tantos estão fechados no medo, na insegurança, e até no conforto da sua rotina.

A ONU em 2021, estimou que 17% dos alimentos disponíveis em mercados, casas e restaurantes vão parar no lixo, e que 60% desse lixo orgânico é gerado nas nossas casas.

Além disso, cerca de 14% dos alimentos produzidos são perdidos entre o momento da colheita e a chegada ao mercado, feiras ou sacolão anualmente.

Esta triste estatística pode mudar. E, se queremos de fato, um mundo mais igualitário, podemos fazer mais.

Sabemos que a questão é muito mais complexa, que passa pela educação, pela necessidade de se discutir e implantar mais a diversidade nas organizações, de ter cotas para os menos favorecidos nas universidades, de oferecer capacitação….

Talvez me chame de sonhador, mas lembrando novamente outra frase de Santa Tereza de Calcutá, que diz que somos apenas uma gota de água no oceano, mas se faltar esta gota, o oceano será menor.

Se entendermos que, mesmo fazendo pouco ou mobilizando pessoas, instituições que tem este mesmo sentimento, esta mesma dor de ver tantos com tão pouco, e nos unir para ajudar o outro a saciar sua fome e de sua família, teremos uma recompensa que é oferecer um prato na mesa, que se transforma em amor em forma de ação.

Para aqueles que estão lendo e vivem numa região que tem inverno, poderiam, por exemplo, colocar uma blusa, uma camisa, um par de meias e, ao vislumbrar aquele necessitado no farol, e, ao invés de fechar o vidro, oferecer o que você não usa e fica esquecido nas gavetas. Tenho uma dica que é muito simples: se não usou durante um ano, é porque você não precisa.

Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV

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