Ontem precisei de um martelo. Quando estava usando, me lembrei que comprei junto com uma caixa de ferramentas a 38 anos atrás. E, apesar da sua cor oxidada marcada pelo tempo, o cabo de madeira com aspecto envelhecido, tinha a mesma utilidade, como algo clássico, atemporal.
Neste momento pensei no meu celular que tenho a pouco mais de 02 anos e que tenho o sentimento de que está ficando obsoleto. Resolvi fazer um comparativo entre os dois, e a conclusão foi a mesma, apesar da distância de quase 36 anos e da absurda tecnologia embutida em um e inexistente em outra: ambos cumprem o seu papel!
Por que então tenho o sentimento tão diferente entre o martelo e o celular?
A resposta veio simples e me deixou até um pouco decepcionado comigo: hoje consumimos “status”, “vida útil”, “qualidade percebida como um recurso adicional para fotografar”, mais memória, tamanho do celular ou até mesmo a obsolescência programada que não atualiza mais o sistema operacional….
Precisamos realmente trocar um celular com pouco tempo de uso? Porque não tenho o mesmo sentimento em relação ao meu já “idoso” martelo?
Voltando às lembranças, e das mudanças que não sei dizer se é possível apenas avaliar de forma binária: se é bom ou não….
Quando queria tomar um suco de laranja, não ia a um supermercado e comprava um suco pasteurizado + embalagem + rótulo + lote + validade e refrigerado; simplesmente pegava um espremedor manual e cortava no meio as laranjas e as espremia até encher um copo de suco natural e saboroso. Como no caso das mangas, que nem sabia que existia mangas como Palmer, Tommy e Haden. Só conhecia a Coquinho, a Espada, a Bourbon, chupado no pé.
Com estas lembranças vieram também a imagem da minha saudosa mãe, que preparava a lancheira com muito carinho para ir à escola, colocando um pedaço de pão “bengala” com manteiga Aviação e, de vez em quando com queijo fresco comprado de um produtor “artesanal” (nem sabíamos que existia esta denominação rsrsrs), que vendia os queijos frescos, semi curados e curados de bicicleta com fatias de mortadela que eu tinha o hábito de chamar de “mortandela” (rsrsrs) e era devidamente acompanhado por um suco natural ou um leite com achocolatado, tinha até um cor de rosa sabor morango. Mas nao tinha o mini bolo empacotado. Ia também uma maçã que era sempre “farinhenta”.
Calçava um kichute ou um Conga. Em ocasiões especiais utilizava um sapato Vulcabrás que durava enquanto o pé não crescia. Depois passava para outro. Ainda não tinha o conceito fast fashion nem do jeans.
Com a origem nipônica que corre em minhas veias, nasci sem o dom de jogar bola e dançar (rsrsrs). Então busquei esportes como o Judô, que me ajudou a competir com ética e respeito pelo próximo, sendo incentivado pelo meu avô, imigrante japonês que veio transformar o sonho que “aqui tudo que se planta dá” em realidade…..
Hoje a velocidade e a vida útil de tantas informações, fake news que nos atingem diariamente, necessidade de consumir novas tecnologias, dificulta diminuir o ritmo e ter tempo para uma reflexão, compreender que muitas vezes o que é considerado como inovação, deve e precisa ser repensado. Que o sustentável pode ser apenas green washing. Que estamos esquecendo de lições aprendidas e, infelizmente, sem um consumo consciente, colaborando para tornar nosso mundo mais frágil, mais desigual, afetando e diminuindo a biodiversidade, desequilibrando nosso clima e gerando uma grave ameaça à segurança alimentar.
Mais do que nunca devemos voltar ao básico, nos blindando deste consumismo desenfreado onde não haverá ganhadores, pois somos pequenos demais para desafiar a natureza e ficarmos impunes.
Mas é importante entender que a natureza não se vinga, mas se transforma e torna nosso ambiente mais inóspito, hostil para produzir alimentos, e alimentos em abundância a preços mais justos, gerando riquezas e novas oportunidades.
Precisamos nos conscientizar que, se não olharmos para o próximo, para nós mesmos como parte integrante deste universo, seremos apenas mais uma espécie que passou pelo planeta.
Se há uma informação relevante, é que somente sendo protagonistas desta mudança de mindset, de entender que estamos “umbilicalmente” ligados ao que nos cerca, otimizando recursos finitos, praticando a economia circular, consumindo menos, produzindo menos lixo, diminuindo as emissões de gases de efeito estufa, recuperando áreas degradadas, onde o ganho financeiro será apenas a consequência desta nova consciência e ação estruturada em valores, voltados às ODS e as metas da Agenda 2030 e não a causa……
O caminho passa pelo investimento em educação que gera conhecimento, mas uma educação ligada à realidade do nosso dia-a-dia, que espelha as dificuldades, a capacidade de viver sem segurança, de nos adaptar à pandemia, a nos capacitar para não ficarmos intelectualmente obsoletos e, ao mesmo tempo, respeitando a diversidade, praticando atitudes éticas, vivenciando a crescente conscientização da boa governança nas empresas, gerando melhorias e uma vida digna para todos.
É possível ou é uma utopia?
Sinceramente tenho muitas dúvidas se haverá tempo e que organizações, governos, escolas conscientes consigam evitar um mal maior a tempo. Como também não acredito que conseguiremos evitar o aumento da temperatura em apenas 1,5 graus centígrados, gerando como consequência, a cada ano que passa, recordes de temperatura, derretimento de geleiras, das calotas polares, eventos climáticos mais severos, aumento da seca e de inundações, geadas, maior insegurança alimentar, aumento dos níveis dos oceanos, e no caso de áreas costeiras, estudo publicado na revista Environmental Research Letters, este aumento pode colocar em risco mais de 1 bilhão de pessoas.
Mas, mesmo com a descrença, tenho a insensatez de querer tentar. Acreditar na força e na capacidade de superação do Homo Sapiens, na persistência quando há a crença que estamos praticando algo importante para todos, que tanto pode ser nossos filhos, pais, amigos e desconhecidos. Para isto se tornar uma verdade, necessitamos estruturar planos e não compreender as causas raízes e permitir que ideologias contaminem uma visão mais pragmática, ficando comodamente na “superfície”, no debate leigo que geram influenciadores e não cientistas, produzindo conclusões provavelmente demagógicas e “rasas”….
Fica então a pergunta: martelo ou celular? Eu escolho ambos, utilizando de forma consciente como ferramentas que nos ajudam no nosso dia-a-dia, e não como símbolos… menos retórica e mais ação…..
A natureza agoniza!
Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV
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