Brahman, o zebu mundial da produtividade nos cruzamentos

23 de fevereiro de 2022

Suas conhecidas habilidades zootécnicas se mostram indispensáveis na bovinocultura de escala nos quatro cantos do planeta. Trata-se da raça zebuína mais utilizada nos cruzamentos
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Brahman, o zebu mundial da produtividade nos cruzamentos
O dorso-lombo e garupa, onde se localizam as carnes mais nobres, são regiões do Brahman com bom volume e todo o posterior também é de ótimo desenvolvido, muita convexidade – Foto: Divulgação ACBB

Não é gratuito o fato de o gado Brahman ser o mais utilizado em cruzamentos em todo o mundo, em todos os continentes. Trata-se de uma raça de extrema versatilidade, capaz de gerar respostas positivas nos mais variados modelos de exploração, portes de criação e objetivos econômicos. Da produção de genética melhoradora ao resultado final no gancho, com diferencial de carcaça e carne de qualidade, há toda uma vitrine vasta de bons produtos.

A dedicação da Fazenda Arrojo, propriedade de Olídio Carlos Blanc Gomes, situada em Teófilo Otoni (entrada do Nordeste mineiro), à seleção de Brahman já merece destaque, não só pela excelência do que produz em genética, mas pelas respostas comerciais que dá ao negócio como um todo.

“O trabalho é realizado com carinho, responsabilidade e foco permanente no melhoramento genético”, reforça o gerente técnico João Cervoni. As atividades tiveram início em 2009 e as premiações em pista vieram rapidamente.

Apesar da boa carreira em importantes exposições, a partir de 2013 grife Arrojo entrou um novo período. Todos os animais passaram a ser criados no sistema extensivo, exclusivamente a campo, com mineralização básica.

No entendimento do pecuarista, “para alcançar a excelência em melhoramento genético, um criatório deve oferecer as mesmas condições de criação para todos os animais e, o mais importante, que elas sejam as mais próximas possíveis de onde a genética terá de trabalhar, sempre melhorando a produção de carne e leite.

Cervoni, que também é diretor técnico da ACBB, estudou mais profundamente o mercado do seu entorno. Percebeu que havia boa demanda para as fêmeas ½ sangue Brahman, excepcionais no que diz respeito a precocidade, fertilidade e habilidade materna. Então tratou de abraçar o filão.

Bezerros three cross em vacas meio sangue
oPara a continuidade do cruzamento industrial inserindo as fêmeas F1, Angus por exemplo, na vida reprodutiva, a raça Brahman mantém a heterose, coloca volume de carcaça e produz carne de qualidade. Na foto, bezerros three cross (F2) em vacas meio sangue angus – Foto: Divulgação ACBB

Hoje, a experiência de cruzamento industrial do criador parte de 700 matrizes aneloradas que produzem por volta de 600 bezerros/ano. Sacados os animais de reposição, todo o restante é comercializado em leilão próprio, já na desmama.

E o bom desempenho das fêmeas ½ sangue Brahman nas propriedades de seus clientes tem aberto demanda também para as ¾ de sangue, bezerros com colocam mais 10kg no peso médio na desmama, em relação aos F1, que apresentam peso base em torno de 220kg, em condições bastante adversas de seleção, própria da região.

Isso significa dizer que Cervoni passou a fazer a reposição das matrizes aneloradas com reses ½ sangue. O bramista ainda faz um three cross a partir de 80 vacas ½ sangue Angus, cuja desmama supera os 240kg de peso médio.

Este desempenho, aliás, é uma meta do criador. Ele planeja, a partir do momento que toda a base de matrizes apresentar 15/16 de grau de sangue Brahman, produzir F1 com a raça britânica. Para fazer a F2, desta vez terminal, mais uma vez o zebu norte-americano entrará em cena.

Toda a tourada de trabalho da Arrojo é crioula, de linhagens dos EUA. O núcleo PO possui 350 matrizes, responsáveis por cada boa safra de reprodutores. Entre 22 e 26 meses trabalham em casa na estação de monta que vai de novembro a fevereiro. Depois seguem para a comercialização, também em leilões; ocasião em que já provaram sua competência.

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As habilidades frigoríficas da raça Brahman estão estampadas no abate técnico realizado pelo Brahman Vitória – Foto: Arquivo Brahman Vitória

Carne de qualidade em escala

Dentro da sua proposta de uma pecuária seletiva validada pelo maior número de ferramentas disponíveis, Alexandre Coccapiller Ferreira, titular do Brahman Vitória, com propriedade em Brasilândia (MS), realizou um abate técnico, colocando em xeque dessa vez quatro categorias de animais. A jornada contou com a chancela da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ).

Conhecido como o zebu mundial, por contribuir na formação de diversas raças sintéticas e por participar diretamente na produção de carne de qualidade pelo cruzamento industrial, nos cinco continentes, o Brahman reforçou sua vocação e Ferreira comemorou o bom desempenho do gado.

“A raça proporciona uma excelente heterose também no cruzamento com zebuínos. No frigorífico, estes animais foram bem recebidos e bonificados. É o que todo pecuarista procura: eficiência produtiva e lucro”.

Foram abatidos 70 cabeças, entre Brahman puras e cruzadas. No gancho apresentaram expressivo rendimento de carcaça, variando de 54,55% a 56,38%. Do total abatido, 18 eram machos F1 (Brahman/Angus), 18 machos Brahman POs, 18 machos 3/4 (Brahman + 1/4 Nelore) e 16 meio-sangue (Brahman/Nelore). Em todas as categorias, o resultado apontou um alto índice de acabamento, predominando a classificação 3 para gordura mediana.

Os lotes também tiveram um Ganho Médio Diário (GMD) relevante, marcando faixa de 1,73kg a 2,46kg, de acordo com cada cruzamento. No caso dos animais POs, o GMD foi de 2,06kg. Vale ressaltar que todos os animais foram criados em um mesmo regime alimentar e confinados por um período de 96 dias.

O peso das carcaças variou de 352,19kg a 381,92kg. O técnico da ABCZ, Rafael Resende, acompanhou de perto o abate e ficou impressionado com os números, reforçando o alto acabamento de gordura e a precocidade, em sua maioria animais de dois dentes.

Segundo o especialista, os lotes se destacaram também pela estrutura corporal e musculatura. “Animais muito bem padronizados e de qualidade no volume de carcaça, evidenciando o trabalho de seleção realizado pela grife, que representa com excelência o que de melhor se faz com a raça no Brasil. O Zebu, independente do sistema de produção, é um gado que mostra resultado no campo”, assegura o técnico da ABCZ.

A raca Brahman responde com eficiencia nao so no regime extensivo de criacao em ambientes adversos mas tambem em terminacao confinada
A raça Brahman responde com eficiência não só no regime extensivo de criação, em ambientes adversos, mas também em terminação confinada – Foto: Arquivo Brahman Vitória

Um pouco de história

Por volta da mesma época em que os primeiros zebuínos entraram no Brasil, final do século XIX e início do XX, também os Estados Unidos também recebeu essa variedade. Uma diferença, porém, foi notória no trabalho dos dois países na criação do então novo gado.

Enquanto o nosso país se preocupou em formar grupos distintos raciais (Nelore, Gir, Guzerá) e um híbrido entre as raças indianas (Indubrasil), no hemisfério norte, foram feitos cruzamentos direcionados com as diversas raças importadas (Nelore, Guzerá, Gir, Khrisna Valley, Sindi, Cangaiam, Tharparkar, Indubrasil e talvez outras ainda) e focaram mais nas características quantitativas, com apoio de técnicos e pesquisadores.

Os pioneiros do zebu dos EUA ficaram impressionados com aquele gado com uma corcova nas costas e o quanto ele respondia bem a poucos cuidados. Viram nele a solução do impasse para a difícil criação de raças especializadas (europeias), que não se adaptavam bem ao clima do Sul do país e não conseguiam repetir a boa produção de carne que os animais do Norte realizavam.

As importações de cabeças vindas diretamente da Índia e até do Brasil foram em pequeno número (por volta de 300 cabeças) e com a maioria de machos. A formação da nova raça teve que se dar por cruzamento absorvente em base de fêmeas taurinas existentes.

A intenção era multiplicar o contingente de bovinos com aquelas características produtivas que o gado de “longas orelhas da Louisiana” (Big Eared Lousiana) possuía. E logo a procura por elas passou a ser crescente.

Os animais suportavam bem as dificuldades com o clima, os parasitas internos e externos, as doenças e convertiam melhor as pastagens de baixa qualidade. Por volta de 1924 saiu do Brasil um grupo de animais (de criadores uberabenses e fluminenses) dirigido ao México.

Mas devido às dificuldades que aquele outro país enfrentava, na ocasião, a maior parte dessa exportação acabou indo para os Estados Unidos. Ela foi fundamental para firmar o grupo étnico que estava em plena efervescência e que mais tarde daria origem ao Brahman.

Então como base fundamental da nova raça acabou ficando o Gir, o Nelore, o Guzerá e Krishna Valley. O Brahman se estabeleceu no Sul dos EUA (Louisiana e Texas), nos estados de ambiente mais adverso, e lá fez fama e sinônimo de produção de carne e leite foram doas regiões temperadas do globo.

Desceu para o Sul no continente americana, atravessou mares e chegou à Oceania, retornou a alguns países da Ásia e hoje está também na África. Na receita de sucesso, sempre o cruzamento para conferir rusticidade e adaptabilidade à genética taurina, centenária em termos de seleção para produzir carne e leite.

E é exatamente dessa necessidade de alimentar com proteína animal as pessoas dos trópicos que fez do Brahman a excepcional base para o surgimento de novas raças sintéticas, tais como o Brangus (Angus x Brahman), o Braford (Hereford x Brahman), o Santa Gertrudis (Shorthorn x Brahman), o Bravon (Devon x Brahman), Brahmousin (Limousin x Brahman), o Charbay (Charolês x Brahman), o Simbrah (Simental x Brahman), o Beefmaster (Shorthorn x Hereford x Brahman), o Droughtmaster (Shorthorn x South Devon x Brahman), e Brahmolando (Holandês x Brahman).

Na bagagem, a raça levou uma morfologia ótima para produção de carne. Seu tórax profundo, de costelas bem espaçadas e um ótimo volume gastrointestinal, bem funcional. Isso já denota boa capacidade respiratória e digestiva, fundamentais para um bovino produtivo. Sem oxigenação, boa troca de gases, e sem uma boa área de absorção intestinal, nenhuma raça poderá produzir bem.

As raças mais precoces têm isso bem marcante. O dorso-lombo e garupa, onde se localizam as carnes mais nobres, são regiões do Brahman com bom volume e todo o posterior também é de ótimo desenvolvido, muita convexidade. E tudo isso, ainda em idade jovem. O gado é precoce. Na desmama, já se nota uma grande diferença quando comparado a outros criatórios.

Por Redação Mundo Agro Brasil/MAB

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