Emergência Global

Conseguiremos deixar um legado que faça com que a civilização como nós a conhecemos, continue a habitar este pequeno “lar” entre os mais de 100 bilhões de outros planetas?
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Emergência Global

Quando alguém se importa com o outro, deixa um pouco de si. Pode ser apoiando na dificuldade, um abraço amigo num momento de carência, uma atitude de compaixão.

Devido à complexidade das relações, da quantidade de horas que trabalhamos via home office ou presencialmente, vivenciamos situações de stress, podendo chegar até a Síndrome de Burnout, à depressão.

Felizmente, há líderes que entenderam este momento e atentos, estão acolhendo seus funcionários através de ações positivas como implantação de home office, ênfase em cuidados como distanciamento social, distribuição de máscaras e álcool em gel, apoio psicológico personalizado, recuperando a dignidade e devolvendo a autoestima que a pandemia leva todo dia em forma de ansiedade, luto e incertezas. São atitudes que faz um funcionário se sentir grato, mantendo-o engajado e fazendo parte da organização, diminuindo com isso o turnover.

Mas outros tipos de empresas, por não vivenciar estes valores, passam como uma brisa rápida, que levam profissionais frustrados a procurarem novos desafios, e o tempo se encarrega de apagar o pouco que ficou, pois não deixou nada que valesse a pena manter, a não ser a lembrança de um ambiente tóxico, de uma gestão autoritária.

Levando esta comparação para o atual cenário mundial, frente às ameaças socioambientais, estimativas da ONU e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelam que até 2030, pelo menos 118 milhões de pessoas no continente africano estarão expostas à seca, inundações e calor extremo, gerando mais insegurança alimentar, pobreza e deslocamentos. Hoje já são mais de 1,2 milhão de deslocados devido a desastres ambientais e outros quase 500 mil causados por conflitos.

No caso da Covid 19 segundo dados da Wordometers, 331 milhões de pessoas tiveram a Covid, e 5,6 milhões morreram pelo mundo.

Contabilizamos mais 9 milhões de mortos causados pela poluição (Fonte: The Lancet 2017) e o alto preço desta inércia, ineficácia, continua afetando muitas vidas, onde parte significativa está sofrendo com mais intensidade, que são os menos privilegiados.

Mas, conseguiremos deixar um legado que faça com que a civilização como nós a conhecemos, continue a habitar este pequeno “lar” entre os mais de 100 bilhões de outros planetas?

Na sua longa história, houve muitos que passaram pela terra, a dominaram, construíram impérios que já não existem mais, como diz em Genesis 3: “…Do pó viestes e ao pó voltarás”.

O tempo apagou muito das marcas de civilizações, como estudos estão demonstrando que somente na região amazônica viveram entre oito e 10 milhões de habitantes falando 300 línguas diferentes (Fonte: BBC News Brasil e MAE-USP).

Não há crueldade na natureza, ela apenas cumpre seu papel e seu destino.

A professora Ilana Wainer do Departamento de Oceanografia Física da USP, define de forma clara e assertiva, que as variações climáticas são parte da evolução natural do planeta, função da variação de parâmetros orbitais como a distância terra-sol, a inclinação do eixo da terra e a constante solar.

Mas a ação do homem está desiquilibrando este hoje frágil ecossistema.

Pessoas, organizações e países podem transformar sociedades, tanto para o bem como para o mal, como foi o fim da civilização Inca, o desaparecimento do homem na Ilha da Páscoa e hoje, o aquecimento global com todas as suas consequências.

Quero crer que o nosso futuro não está irremediavelmente ligado à esta insensatez e que, se não podemos resolver o que nos aflige, podemos mitigar as suas consequências e – unidos – seguir em frente.
Infelizmente, eventos trágicos se sucedem, como foi o Mal de Minamata, os acidentes nucleares de Chernobyl e Fukushima e casos brasileiros como o acidente radioativo em Goiânia, o rompimento da barragem em Mariana, as indústrias de Cubatão que no passado despejavam toneladas de gases tóxicos, gerando bebês com deformidades físicas, sem cérebros.

As ameaças persistem apesar do desenvolvimento da ciência, do entendimento dos efeitos nocivos de algumas práticas, do envolvimento de governantes com poderes para evitar esta catástrofe, com debates e tomada de decisões, como na Eco 92, Rio +20, a PNRS e, mais recentemente a COP 26, mas continuamos nos dirigindo para o precipício, amplificando a instabilidade do nosso planeta hoje já inóspito em muitas regiões, aumentando a insegurança alimentar, gerando um abismo social onde muitos estão numa pandemia de obesidade e outros de fome.

Precisamos nos conscientizar em não focar apenas no nosso dia a dia, sem realizar uma reflexão e tomada de ação de mais longo prazo, pois poderemos não usufruir dos ganhos que pretendemos, frente aos eventos climáticos e pandemias.

A estratégia, não é apenas sobreviver, buscando atender nossas necessidades básicas (Hierarquia de Maslow), mas trabalhando – em colaboração – para um mundo mais justo e igualitário onde tantos só esperam por um prato de comida.

Temos que nos indignar e agir quando 01 criança morre a cada 10 minutos no Iêmen por falta de alimentos (Fonte: Unicef) ou reagir às queimadas na Amazonia que é um bioma vital para o equilíbrio climático.

Em 2021 mais de 811 milhões de pessoas vivenciaram a fome (Fonte: ONU) onde 418 milhões estão na Ásia, 282 milhões na África e 60 milhões na América Latina e no Caribe. Mas esta realidade, com a continuidade desta pandemia, incrementa a fome de forma mais acentuada na África, onde a prevalência estimada em 21% da população é mais que o dobro de qualquer outra região. No Brasil, levantamento da Rede Penssan, aponta que há 19 milhões, e 55% das famílias estão sem acesso regular e permanente a alimentos.

Mesmo com o agronegócio batendo recordes de produção, apesar do efeito do La Niña, há barreiras impedindo o acesso aos alimentos, que é a falta de renda, o desemprego, a falta de capacitação, amplificada pela desvalorização da nossa moeda, do aumento do custo de importação (fretes), que aumenta o valor dos materiais importados, e a falta de insumos importantes que foram parcialmente paralisadas pela Covid, aliado à inflação.

Estas desigualdades estão condenando milhões à subnutrição, onde não terão a capacidade de competir, se tornando uma população dependente, que recebe pouco, quase nada….

Estudo da Oxfam, de janeiro de 2021 demonstra que o aumento das fortunas dos 10 maiores bilionários desde o início da crise seria mais que o necessário para prevenir que todas as pessoas caiam na pobreza em decorrência do vírus e pagar a vacina da Covid-19 para todos. As fortunas dos bilionários voltaram ao pico pré pandêmico em apenas nove meses, enquanto a recuperação das pessoas mais pobres pode levar mais de uma década.

No Brasil, há 33 milhões de pessoas que não tem moradia. (Fonte: Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos). E o déficit de moradia em 2019 segundo a Fundação João Pinheiro foi de 5.876 milhões.

Diante deste cenário, qual pode ser nossa contribuição?

Vejo esperança quando vejo as novas gerações, como a Milenium e a Z buscando seu espaço.
Jovens estão buscando serem ouvidos, como ocorreu na COP 26, contestando os modelos obsoletos da economia industrial, exigindo uma mudança de postura dos governantes e empresários frente à não priorização quanto à insegurança alimentar, à destruição do meio ambiente, sobre o que em “Nosso Futuro Comum” de 1987, a primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, já indicava que a pobreza dos países em desenvolvimento e do terceiro mundo e, por outro lado, o consumismo exacerbado dos países do primeiro mundo, eram as causas fundamentais que impediam um mundo mais igualitário, ampliando o aumento das crises, da fome, da perda da biodiversidade e ocorrências de desastres ambientais causados pela industrialização desenfreada, pelo uso do conceito aplicado à exaustão de economia linear.

Como diz a ativista Vanessa Nakate de Uganda: “Quero ver líderes, governos e corporações erguendo suas vozes pelo povo…. os governos são de fato capazes de transformar seus países ou o mundo” (Fonte: CNN).

Vejo a esperança quando empresas estão se conscientizando para serem percebidas como uma organização alinhada às expectativas destes novos consumidores, sob pena de não sobreviverem dentro deste novo momento que envolve compliance, ações inclusivas, contratações baseadas no respeito à diversidade, respeito à natureza, entre outros valores.

Vejo a sociedade organizada, criando fóruns de discussão como a Conferência Internacional de Resíduos e Clima que será realizado em março na capital Recife – PE (www.cirsol.com.br), gerando debates, discussões, sobre este tema vital.

As possíveis soluções residem na mudança da política de distribuição de renda, na capacitação dos menos favorecidos, da ação de ONGs, academia, poder público, na aumento da produção de alimentos sem gerar desmatamento, de empresas que desejam crescer e se perenizar de forma sustentável, sem green washing, da visão transversal que ajuda humanitária não tem limites geográficos.

Vivemos num país que tem todo o potencial para ser protagonista na produção de alimentos de forma sustentável.

Detemos 60% da floresta amazônica, mas fomos o país que mais desmatou proporcionalmente entre 1985 e 2020 em relação aos outros países que compõe o bioma amazônico, onde 19% da floresta deram espaço principalmente à agropecuária e mineração.

Se nós somos parte deste planeta e nos preocupamos, temos que buscar alternativas para deixar um propósito. E o tempo é o nosso grande inimigo. Estamos prestes a atingir o ponto de “não retorno”.
Temos terras degradadas e áreas de pastagens não produtivas que podem gerar os alimentos que o mundo necessita. E a parte positiva, é que parte significativa destes empresários, estão trabalhando de forma séria e ética, visando gerar ganhos e credibilidade para produzir, sem degradar o meio ambiente.
É necessário ter objetivos concretos, que é produzir com qualidade e quantidade, parte dos alimentos para 7,8 bilhões de pessoas e em 2050 para 9,6 bilhões em todo o mundo.

Temos um vasto arsenal de opções via Agricultura 4.0 como a capacidade da ciência, por exemplo, de adaptar variedades à nova realidade climática, como o feijão preto desenvolvido pelo IAPAR tolerante à temperaturas elevadas; na renovação e inovação das matrizes energéticas como fotovoltaica e eólica; de profissionais capacitados em assistência técnica de qualidade; ao acesso à tecnologia tanto para pequenos e médios produtores rurais via cooperativas e grandes produtores com sua infraestrutura instalada; ao uso de matéria prima de excelente potencial genético como sementes; insumos de qualidade; condição climática favorável; capacidade de produzir 2 – 3 safras por ano; novas opções de escoamento de safra para outros países, principalmente a China, barateando o custo Brasil, via modais para o Arco Norte; implantação da tecnologia 5G que viabilizará o monitoramento de área e culturas em tempo real com uso de equipamentos autônomos, uso de drones que irá consumir insumos de forma otimizada, gerando uma melhor gestão e, portanto, mais lucrativa, sem degradar o meio ambiente. Vale lembrar que utilizar a prática de plantio direto gera a diminuição de 40% de gases de efeito estufa.
E, como utilizamos apenas 7,8% das terras para agricultura (Base: Embrapa), temos todas as condições para ser, um produtor de alimentos reconhecido pela sua credibilidade.

Temos que fazer entender, seja pela “mão que bate” como pela “mão que afaga”, que realizar queimadas de florestas, não é um bom negócio. A melhor opção será a mudança cultural, manter e proteger o meio ambiente gerando benefícios econômicos, ambientais, mas principalmente de reputação, pois temos recursos naturais, condições climáticas favoráveis (“ainda”), e expertise para gerar renda em biomas protegidos, recuperando a credibilidade que tínhamos em relação à agenda sustentável.
Estima-se que apenas uma árvore armazene em média 22 kg de CO2 / ano. Quando juntamos todas as florestas tropicais, elas armazenam até 250 bilhões de toneladas de CO2 apenas nas árvores, o que equivale a 90 anos de emissões globais de gases de efeito estufa (Fonte: Renováveis verdes).

É uma exigência desta nova sociedade cada vez mais consciente e das organizações, tradings, governos, que consomem nossos produtos local e globalmente. E não podemos permitir que nosso futuro saia do viés sustentável para o âmbito de securitização do meio ambiente (implicações à segurança e aos interesses econômicos devido à percepção de “vilão” ambiental), interesse este, em tirar o nosso protagonismo em nome da competitividade e subsídios para seus agricultores.

Nesta mudança de mindset é preciso lembrar que nossos filhos e netos estão envolvidos nesta decisão. É ter a consciência que não podemos ser apenas uma leve brisa que não deixa marcas, mas sim, protagonistas que, no seu espaço, atuam com profissionalismo e consciência, sabendo que, com o aumento de 1,50 C, todos perderão.

Acredito que o sucesso da nossa agropecuária, está diretamente relacionado ao incremento do modelo de sustentabilidade via economia de baixo carbono, no uso racional dos recursos naturais, na circularidade da produção deixando de lado o conceito de economia linear, maximizando via tecnologia e melhores práticas, o incremento de produtividade, conjuntamente com a diminuição do desperdício e conscientização.

Se faz necessário criar o conceito de empatia sustentável, entendendo que nós estamos “dentro” deste processo de preservação e não apenas as matas e os animais.

Dependemos da nossa capacidade de multiplicar esta mudança de mindset para crescer, sobreviver e propiciar que nossas gerações futuras tenham esta mesma oportunidade.

Desde os anos 2000, o Brasil tem liderado a produtividade agropecuária mundial entre 187 países (Fonte: Economic Research Service). Que venha a COP 27 no Egito para demonstrar que iremos continuar sendo líder, mas cada vez mais, produzindo com mais consciência, buscando a sustentabilidade que nada mais é que a nossa sobrevivência.

Por Mario Fujii
Gerente de logística do inpEV

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