O Murray Grey ainda é novidade no Brasil

Entre as características dessa raça australiana de gado de corte destacam-se rusticidade, docilidade, qualidade de carne, boa conversão alimentar e precocidade, viabilizando a engorda de garrotes de 18 meses com 19 arrobas
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exemplar da raça. Foto: Associação Brasileira Murray Gray e Greyman
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A raça de gado de corte Murray Grey é resultado do cruzamento do Aberdeen Angus em vaca White Shorthorn, cujo primeiro registro oficial se deu em 1905, no Vale do Rio Murray, na Austrália. Embora sua existência remonte ao início do século XX, a raça ainda é novidade no Brasil e, em busca de consolidação nos trópicos, deu em abril de 2020 um importante passo, a criação da Associação Brasileira de Murray Grey e Greyman (ABMGG).

Quem passa as informações sobre a raça é o pecuarista e selecionador Luiz Carlos Ardengui Sobrinho, presidente da associação.

Formação da raça

Ocorreu na Austrália, em torno do ano de 1903 a 1905. Houve uma grande seca e os pecuaristas saíram para outras regiões, para as ilhas, e trouxeram um gado para repor os rebanhos. Em meio a esse gado, veio uma vaca Shorthorn rosilha. E, conta a lenda, que ela deu 14 crias, todos animais brancos, e ali, na região do Rio Murray, se criou e se desenvolveu a raça. “Hoje ela é um dos carros-chefes da carne australiana”, disse o presidente da ABMGG.

Chegada ao Brasil

Luiz Carlos contou como foi seu primeiro contato com o Murray Grey e sua chegada ao Brasil. “Há oito ou nove anos, eu estava na feira de Palermo, na Argentina, e enquanto olhava o gado, encontrei essa raça”, lembrou Luiz Carlos. “Era um gado claro, de pelagem branca, e me chamou atenção. Fiquei impressionado com o que eu estava vendo, porque era uma raça com uma mucosa preta, uma característica diferente, um biotipo um pouco mais levantado, maior que as outras raças, mas sem deixar de ser perto do chão. Eu comecei a contatar com os argentinos ali, fiz amizade com eles e cada vez que eu falava do Murray Grey, quanto mais encontrava, mais eu gostava. Aí eu visitei os criatórios de lá, passei oito dias na Argentina, e de noite ficava pesquisando sobre a raça. Eu me encantei com e achei que seria uma grande ferramenta para trazer ao Brasil”.

“O Murray Grey foi da Austrália para a Argentina através de embriões e sêmen e eu trouxe animais em pé da Argentina para cá. Também trouxe sêmen e aí começamos a criação aqui, de maneira lenta, bem racional. Eu fui buscar a raça também no Uruguai e de lá também trouxe animais em pé. Então os primeiros animais chegaram ao Brasil pela proximidade, o que facilitou a importação. E cada vez que a gente foi usando a raça nos mais diversos cruzamentos, sempre a campo, ela veio dando cada vez melhores resultados. Não tem do que reclamar da raça”.

Entre as características da raça se destacam a rusticidade, a docilidade, qualidade de carne, boa conversão alimentar e precocidade, viabilizando a engorda de garrotes de 18 meses com 19 arrobas.

“O bezerro nasce muito pequeno, a gente fica (até desconfiado). Mas depois ele vem se desenvolvendo rapidamente. Ele é muito precoce e, para mim, foi um encanto. Cada vez que eu via um bezerro nascer, era uma alegria, porque a gente via que estava dando certo, que era o que tinha visto mesmo, que estava conseguindo copiar o que os argentinos estavam fazendo e melhorá-lo em algumas características também. Foi uma satisfação enorme! Depois, quando começaram a chegar outros criadores atrás da raça, foi muito gratificante também” celebrou Luiz Carlos.

Depois de se estabelecer como raça pura em propriedade no Rio Grande do Sul, em Palmeiras das Missões, onde fica a cabanha de Luiz Carlos, o Murray Grey começou a tomar o território nacional, inclusive contribuindo e complementando cruzamentos diversos, como o Greyman (com Brahman), o Nelogrey (Nelore), Heregrey (Hereford) e com o Senepol.

No Brasil, um dos polos criadores de destaque está em Rondônia, onde produtores já estão colhendo os resultados da engorda de animais sintéticos. “Eu fui até Rondônia, aí lá conheci o Carlinhos (Carlos Henrique Andrade de Carli), um zootecnista, e nós fizemos uma parceria. Ele veio aqui pessoalmente conhecer a raça, no Sul do Brasil, e começamos a fazer o Greyman, que é o sintético do Murray”, lembrou Sobrinho. “Lá, junto com o professor Vinícius Paiva da Silva, zootecnista, e com o veterinário Wilian Boni, nós começamos uma parceria e foi na fazenda do professor Vinícius que nasceram os primeiros Greyman. E o Carlinhos está lá junto com o Vinícius e com o Willian, tocando o projeto e, graças a Deus, está indo bem”.

Em Rondônia, o criatório está localizado no município de Cabixi. Em vídeo enviado ao Giro do Boi, o zootecnista e criador Carlos Henrique Carli flagrou a bezerrada precoce, de cinco meses, já correndo atrás de novilhas apresentando cio. “São animais produtivos, tolerantes ao calor, com uma qualidade de carne excepcional. Os animais são superprecoces, um gado que emprenha cedo. Veja aí, a novilha já manifestando cio e a bezerrada já está atrás. A bezerrada tem cinco meses e está mostrando a precocidade. Provou o que eu acabei de falar aqui. É um gado que nós estamos trabalhando de Norte a Sul do País, tem bastante gente aderindo à raça. Olhe aí, em bezerro de cinco meses, a precocidade. É um gado fantástico. Essa raça ainda vai longe!”, afirmou Carli.

“Ele são muito precoces. Quanto a isso, tem até que cuidar porque as fêmeas pegam cria muito cedo se deixar”, destacou Luiz Carlos.

Qualidade da carne

“A qualidade de carne se destaca no Murray Grey, porque é uma carne muito pouco fibrosa. Ela tem menos graxa subcutânea que a carne das outras raças e tem bastante marmoreio. Então, a raça faz uma carne de primeiríssima!”, comentou. Sobrinho observou também que a raça imprime a característica no cruzamento industrial. “O Murray Grey imprime essa característica sem perder a rusticidade, agregando peso. É uma raça que nos leva sempre a um futuro melhor. A gente sempre está vendo um horizonte a partir dessa raça”, acrescentou.

Genética e criação

Atualmente a raça já está em ao menos seis estados brasileiros com características distintas para a criação, em Mato Grosso, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rondônia e Rio Grande do Sul. “A raça está começando a se multiplicar”, afirmou Sobrinho.

A genética está sendo comercializada pela própria Associação Brasileira de Murray Grey e Greyman, conforme informou o presidente da associação. “Nós temos um touro  que veio como embrião da Austrália para o Uruguai e foi grande campeão da exposição do Prado, no Uruguai. Nós importamos o touro e nós mesmos estamos ofertando. E nós estamos à disposição de todos os pecuaristas curiosos pela raça para conversar, mostrar. Nós queremos que a raça se desenvolva porque é boa, ela agrega muito valor. As fêmeas têm uma habilidade materna muito forte. É normal ver um terneiro mamar na vaca que estiver mais perto e a vaca aceita tranquilamente. É uma matriz muito boa de leite”, salientou.

Mais informações sobre a raça, sua história, cruzamentos e disseminação pelo país por meio de sua genética podem ser obtidas pelo site da Associação Brasileira de Murray Grey e Greyman.

Fonte: Entrevista Giro do Boi

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