A minha terceira cirurgia foi marcada. Eu estava com oito anos, e confesso que não gostei da notícia. Isso porque já sabia que atrás da cirurgia viriam outras coisas: gesso, órtese, muita fisioterapia, enfim, tudo que é desagradável na vida de qualquer um, ainda mais na de uma criança.
Minha mãe nunca me escondeu nada, desde muito cedo soube que enfrentaria muitas coisas e ela sempre falava: “Você tem que enfrentar os desafios de frente, Veri”. Isso eu achava legal da minha mãe, ela nunca achou que eu tivesse algum problema e sim alguns desafios. Sempre me enxergou como um ser humano comum e eu nunca fui mimada – pelo contrário, a vida me foi apresentada de uma forma bem real e isso só me ajudou .
A cirurgia transcorreu com muito sucesso. Dessa vez foram alongados meus tendões adutores, tíbias e calcaneos, e com os gessos moldados nas pernas. Mas, graças a Deus, não pegavam a bacia, somente as pernas. E dá-lhe cadeira de rodas! Esse período pós-cirúrgico foi meio cansativo, pois quanto mais o tempo passava, mais consciência tinha de todas as limitações que a vida me apresentava.
No entanto, nada me impedia de ter uma vida normal e assim que o médico me liberou voltei à escola. No fim, uma criança de cadeira de rodas tornou-se motivo de curiosidade – muitas perguntas eram feitas para mim eu virei tipo uma atração.
Os amigos me ajudavam com tudo, inclusive na hora do recreio. Fiz questão de passar sozinha por esse período, dispensei a ajuda da minha mãe, agindo em concordância com o que ela sempre me dizia e reafirmando para mim que era importante me sentir normal; já que sempre me enxerguei assim.
Quando o gesso foi retirado me colocaram duas órteses, que mantinham o alinhamento das minhas pernas. Logo fui liberada para montar e assim a felicidade voltou. Nessa época, cursava a 2ª série e vieram as famosas tabuadas.
Devido a minha lesão, fiquei com a área da memória prejudicada e era muito difícil decorar. Então minha mãe descobriu que no cavalo eu ficava tão feliz que aos poucos decorava devagar a tabuada. Parece história, mas não é, acreditem: o cavalo foi o responsável por muitas aquisições em minha vida. Acho que por isso sou tão apaixonada por ele.
A cada semana pegávamos uma tabuada é só mudávamos para outra quando aquela estava decorada. Assim também foi feito com as músicas. Eu amo cantar, mas me lembrava só de um trechinho e, cadê o resto? Com o cavalo, mais uma vez, esse processo tornou tudo mágico e perfeito.
Gostaria que todos pudessem usufruir dessa sensação que o cavalo me passa. É uma transformação. Através dessa energia o meu cérebro desenvolveu uma maneira diferente de realizar tarefas, sempre no meu tempo, que é um pouco diferente dos outros, mas afinal de contas, o tempo é diferente para cada pessoa; cada um possui o seu.
Próximo passo: ir atrás do sonho….de preferência cavalgando
Depois de reabilitada, fui convidada a fazer Adestramento na Fazenda Bela Vista. O professor era o Fábio Lombardo, que ministra aulas para paratletas. Pude montar cada cavalo maravilhoso, mas tenho que dizer que a modalidade não me envolveu.
Assim, depois de algumas aulas, mais ou menos dois meses, resolvi abandonar essa modalidade e ir atrás dos meus sonhos que ainda não estavam bem definidos. Então comecei a treinar em um cavalo Quarto de Milha que ganhei de uma amiga da minha mãe. Esse cavalo era muito bravo, não cansava de aprontar, mas comigo a coisa era diferente. Tenho a certeza de que ele sentia a minha real necessidade.
Meu desejo é que mais e mais pessoas possam ter o mesmo contato que eu tive com o cavalo. Quem sabe, um dia, consigo proporcionar a crianças e adultos a oportunidade de ter essa felicidade na convivência com cavalos, sentindo que eles fazem toda a diferença.
Por Veri Real
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