“Mercados de petróleo estão atravessando um período de turbulência”, disse o ministro de Energia da Arábia Saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman, na terça-feira (29). Segundo o ministro, ataques transfronteiriços puseram em dúvida a capacidade da Arábia Saudita de atender as exigências energéticas necessárias do mundo. E reiterou que a capacidade de seu país de garantir a segurança energética já não é mais garantida.
Os ataques foram lançados por rebeldes houthi apoiados pelo governo iraniano, a partir do Iêmen. “Não é preciso dizer que, se essa segurança de oferta for atingida, isso irá nos atingir. Mas, de maneira geral, acho que também afetará a economia mundial”, disse Abdulaziz, durante evento patrocinado pelo governo de Dubai.
Os preços do petróleo, que já estão nos maiores níveis em anos, subiram ainda mais com novos ataques de rebeldes houthi contra instalações petrolíferas sauditas.
Na análise de Barani Krishnan (Investing), que utiliza diversas visões além da sua para dar diversidade aos seus comentários sobre o mercado, o petróleo é alvo preferido na guerra do Iêmen e o cessar-fogo segue frágil.
E ele diz: “Logo após explodirem um depósito de petróleo em Jidá no fim de semana – um espetáculo ainda mais audacioso por acontecer na véspera da corrida de Fórmula 1 naquela cidade –, os houthis iemenitas, apoiados pelo Irã, oferecem um cessar-fogo que, segundo eles, pode ser duradouro se a Arábia Saudita responder a contento”.
Mas se a história servir de guia, as hostilidades podem recrudescer assim que as 72 horas de prazo dado pelos houthis expirar na quarta-feira, já que é pouco provável que os sauditas aceitem suas condições – situação típica durante a longa guerra de sete anos, considerada mais como uma “batalha por procuração” entre o reino e seu arquirrival Irã.
O conflito já vitimou até agora milhares de pessoas, em sua maioria civis, e deixou milhões em situação de fome. A violência aumentou nos últimos meses, assim como os ataques houthis de maior relevância contra locais de energia da Arábia Saudita, após o notório atentado de setembro de 2019 às instalações de processamento de petróleo em Abqaiq e Khurais, afetando metade da capacidade de produção do reino.
Geralmente, após cada ataque, os preços do petróleo saltam em torno de 1-3% e recuam rapidamente. Muitas vezes, no entanto, o dano causado às instalações atingidas leva mais tempo para ser sanado, provocando atrasos mais longos para o setor regularizar o abastecimento.
E o petróleo continua sendo o alvo preferido?
Nas palavras de John Kilduff, sócio-fundador do fundo de hedge de energia Again Capital, de Nova York, a proposta de paz dos houthis pretende arrefecer as tensões após o ataque de Jidá, trazendo o foco para o que o Irã realmente quer, o acordo nuclear, mas não está disposto a implorar por isso.
“Não é coincidência que o petróleo esteja sempre sob ataque no pior momento possível, como agora, quando sua oferta está restrita. Qual outra commodity permite que façam isso com o mesmo impacto do petróleo?”, disse Kilduff.
Kilduff diz ainda: “Não importa se estamos falando dos rebeldes do Boko Haram, que certa feita aterrorizaram a Nigéria, ou os houthis apoiados pelo Irã contra a Arábia Saudita, ou ainda Putin contra a Europa – todos usam o petróleo como arma para alcançar seus objetivos. Por isso, esse não será o último cessar-fogo nem o último ataque ao petróleo”.
David Cook, professor associado da Rice University, chegou à mesma conclusão em sua tese sobre o petróleo e o terrorismo que, segundo ele, é responsável pelo risco geopolítico e financeiro no mercado de energia.
Para o analista, “como o petróleo é um dos principais recursos, senão o mais importante dos países muçulmanos, é fundamental que os grupos radicais islâmicos neguem a seus próprios governos as receitas derivadas do petróleo, já que sua intenção é aumentar a sensação de crise gerada por seus ataques terroristas no mercado mundial de petróleo”.
Segundo ele, a escassez de recursos naturais no Oriente Médio além do petróleo e a dependência exclusiva às receitas de hidrocarbonetos fazem com que os países muçulmanos ricos em petróleo possam ser desestabilizados por ataques à infraestrutura petrolífera.
“Por ser uma commodity economicamente explorável, o petróleo fica em situação vulnerável, na medida em que sua infraestrutura produtiva geralmente se concentra em alguns poucos locais dentro de determinado país”, disse Cook.
E finaliza: “Mesmo um ataque fracassado ou direcionado a uma parte subsidiária da indústria petrolífera (como um petroleiro em alto-mar) pode ter ramificações muito além da importância real do evento, aumentando os preços do petróleo ou fazendo com que o mercado flutue”.
Enquanto isso, no Brasil, reflexos do conflito entre Rússia e Ucrânia
Enquanto isso, no Brasil, também na terça-feira passada, de acordo com informações da Reuters, a bolsa paulista apontava alta, após indicativos de avanço nas negociações relacionadas à guerra entre Rússia e Ucrânia. As equipes dos dois países realizaram o primeiro encontro presencial em mais de duas semanas.
As notícias sobre a guerra derrubavam os preços do petróleo, enquanto investidores reagiam à indicação de Adriano Pires à presidência-executiva da Petrobras no lugar do general da reserva Joaquim Silva e Luna. As ações preferenciais da empresa tinham alta de 2%.
Fonte: CNN/Investing/Reuters
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