Renovando a máxima real da série histórica do Hortifruti/Cepea – iniciada em 2008 – o preço da cenoura subiu de novo em São Gotardo (MG) nos últimos dias. Entre 7 e 11 de março, a caixa de 29 kg da “suja” foi comercializada a R$ 140,00, em média, e aumento de significativos 17,9% frente à semana anterior.
O preço da cenoura está chamando a atenção dos consumidores e virou até memes nas redes sociais depois que o quilo do alimento passou a ser encontrado por R$ 10 a R$ 14, nos primeiros meses do ano.
Para entender as causas dessa movimentação, podemos lembrar da edição de fevereiro (10/02/22) da revista Hortifruti Brasil, publicação do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), com um tema muito comentado no começo deste ano: o clima.
O artigo dizia que nos últimos 12 meses, importantes regiões produtoras de frutas e hortaliças enfrentaram secas, geadas e, em janeiro, chuvas muito acima da média histórica. A adversidade mais recente está em parte relacionada ao fenômeno climático La Niña, que está atuando no Brasil desde o final do ano passado e tem provocado excesso de chuvas no Nordeste e precipitações abaixo da média e/ou irregulares no Sul do País.
Tal cenário influencia negativamente a produção de HFs e pode, inclusive, resultar em queda na exportação de frutas. Isso porque as chuvas acima da média no Nordeste desfavorecem a qualidade de frutas que são produzidas para venda externa.
Além da qualidade, a alta umidade tende a diminuir a produtividade e levar a perdas, o que, por sua vez, causa prejuízos no campo, mesmo diante de possíveis altas nos preços, por conta da menor oferta. O clima desfavorável (com excesso ou falta de chuvas) também aumenta a necessidade de intensificação de cuidados fitossanitários preventivos e, consequentemente, amplia o custo médio de produção, que, vale lembrar, já está elevado por conta da forte valorização dos insumos.
Já no Sul, embora as chuvas abaixo da média causem alguns danos à produção e receios de falta de água para irrigação, em muitos casos, registra-se aumento da produtividade frente a anos em que o regime pluviométrico ocorre dentro ou acima da média no período. Isso porque chuvas volumosas tendem a prejudicar mais a produção do que o clima seco, especialmente quando se levam em conta áreas irrigadas.
Também em fevereiro, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor aumentou 55,41% sobre o mês anterior. No caso da cenoura, as variações foram desde 39,26% em São Paulo até 88,15% em Vitória.

O que está por trás da alta de preço da cenoura?
Marina Marangon, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) reitera a afirmação de que a inflação da cenoura é consequência, principalmente, das chuvas intensas que afetaram as principais plantações do País. Ela constata também que os estados mais prejudicados foram Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, que são os grandes produtores da raiz. “Devido às chuvas em janeiro e fevereiro, as plantações de Minas Gerais, como em São Gotardo – cidade que abastece o mercado nacional – ficaram prejudicadas. O estrago foi tão grande que os maquinários de colheita não puderam entrar nas plantações por conta dos alagamentos nos plantios”.
E Marina continua, falando do agravamento, com o descarte de muitas cenouras após a colheita, já que a umidade no solo deixou o alimento impróprio para o consumo, além de apresentar doença nas raízes. “O volume de cenouras vendido pelos produtores diminuiu e veio em consequência o aumento no valor”.
Os dados do Cepea apontam que em fevereiro os produtores cobraram 70% a mais pela cenoura vendida aos beneficiadores do que no mês anterior. Na primeira semana de março, a caixa de 29 kg era comercializada pelos agricultores a R$ 118,75, ainda de acordo com o Cepea.
“Em dezembro, começamos a sentir bem a alta, mas ainda o produtor me vendia uma caixa de cenoura por R$ 50. Em janeiro, passou a ser R$ 120 e, depois, foi para R$ 130, R$ 140”, relata Toshiyuki Mishima, que está à frente de uma empresa de beneficiamento de cenoura há mais de 20 anos, em Piedade (SP).
Ele recebe a chamada cenoura “suja” da roça, lava, faz a seleção e embala para revender aos mercados, inclusive o Ceagesp, maior central de abastecimento da América Latina. “Passei a revender por R$ 170. Por isso, o consumidor está encontrando o preço do quilo alto”, completa o distribuidor. Mishima diz que nunca viu um valor tão alto para o legume em seus 25 anos no setor. Ele lembra que o volume de produção vem caindo desde 2021 — a primeira “culpada” foi a seca. “Ano passado, tivemos seca e muitos não investiram na cenoura pelo preço baixo. Agora, tivemos chuva intensa e o preço aumentou e está faltando produtividade”, ressalta.
Segundo pesquisadores do Hortifruti/Cepea, mesmo com as cotações impulsionadas pela baixa oferta da raiz em todo o País, as cenouras disponíveis têm sido comercializadas. E que alguns dos produtores consultados estão plantando a variedade de inverno antes do tempo (a atividade geralmente ocorre em abril), na tentativa de atenuar os problemas com nematoides, alegando que as variedades de inverno são mais resistentes.
Outra informação é que a maioria dos produtores consultados demonstrou intenção de aumentar as áreas de plantio. Para as próximas semanas, os preços devem se sustentar ou até mesmo seguir em elevação, no caso de as previsões de chuvas se confirmarem, o que pode dificultar a colheita e limitar a oferta.
Fonte: Cepea/Hortifruti/ Informativo Sete Lagoas.com.br
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