Ser um paratleta é para os fortes!

A trajetória de Veri Real, campeã em provas equestres, é inspiração para muitos competidores paratletas
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Ser um paratleta é para os fortes
Veri Real e WRA Shady Pakin – Foto: Hugo Lemes
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Quando ouvimos dizer que o cavalo transforma vidas, que é um grande incentivador, aquele que, além de compartilhar, consegue trazer à tona o melhor do competidor, na verdade não temos ideia do quanto isso é real. Também não temos noção do que passam tantos cavaleiros até chegar ali, naquela competição e fazer bonito.

Existe uma história que mostra claramente todo esse processo de participação em competições, uma narrativa de quem vivenciou muitas experiências para realizar seu desejo de montar e vencer provas equestres. Estou falando de Veridiana Tranjan Real, a quem tenho profunda gratidão por ter dividido comigo sua caminhada como paratleta, me contando sobre suas expectativas, sensações e, principalmente, a respeito de sua força de vontade inabalável. Ela faz tudo parecer mais fácil, simplesmente porque acredita que com vontade não é possível haver limitações.

Foi por causa da Veri Real que os paratletas de várias modalidades equestres tiveram e estão tendo a oportunidade de disputar novas categorias, especialmente nas provas da ABQM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha). Ela nunca se dá por vencida, pois quer sempre ampliar o leque de opções, abrir mais uma categoria, obter qualificações, handcaps, mostrar aptidões e agregar participantes. E não sossega até conseguir essas novas inclusões.

Quanto à modalidade de Baliza, Veri diz que é importante para desenvolver a coordenação motora. “Já na Rédeas, o lance é conseguir tirar do cavalo várias manobras. O Tambor, me atraiu pela adrenalina. Sempre quis sentir essa sensação. Queria que o Tambor passasse a ser esporte olímpico e paraolímpico”, completa Veri, acrescentando que agora a próxima modalidade será o Ranch Sorting.

Atualmente, Veri se empenha junto à ABQM por duas novas conquistas. A primeira é para poder participar nas provas oficiais em outras categorias, e a outra é que a Associação apoie a inclusão no seu quadro de modalidades aos paratletas.

Neste evento mais recente, o Campeonato Nacional da raça Quarto de Milha, houve motivos extras para comemorações: o evento bateu recorde de paratletas, com 19 inscrições. Com ‘sangue nos olhos’, como ela costuma dizer, Veri marcou sua presença no 44º Campeonato Nacional da raça Quarto de Milha, sagrando-se tetracampeã correndo com outros quatro competidores e baixando o seu próprio tempo, com a marca 21s485, no Paratambor.

Além da vitória, a maior comemoração para Veri Real, a percursora da categoria é a quantidade de participantes nessa edição do Campeonato. “Este ano superamos o número de participações, um recorde importante de inscrições nessa nova categoria, que é dividida em cinco handicaps. Foi um show! Fizemos as provas junto com os nossos companheiros, os cavalos, que nos fazem sentir ainda mais vivos e inclusos”, conta Veri.

E ela diz: “Isso me deixou muito feliz, plantei uma sementinha que está virando uma grande árvore. No Nacional, fiz o Teste Horse, com um tempo de 22.500s, e no dia seguinte, dei 21.400 s, tornando-me tetracampeã do Nacional. Tudo isso é muito importante para minha carreira”.

Ser um paratleta é para os fortes!
Veri Real recebendo sua premiação no Campeonato Nacional QM – Foto: Hugo Lemes

Parece filme, mas é uma história real

A paratleta de muitas conquistas, Veri Real, parece mesmo um personagem de filme com sua envolvente e emocionante trajetória de vida, nutrindo confiança e força de vontade, perseguindo incansavelmente seus sonhos e cumprindo um a um seus objetivos. A diferença é que se trata de 100% verdade, não apenas baseada em fatos reais.

Andreia, a mãe de Veridiana, conta que durante o parto, Veri teve uma anoxia cerebral, isto é, falta de oxigenação, o que ocasionou tetraparesia espástica nível motor 2, pitose bilateral – onde as pálpebras fecham e há dificuldade em abri-las. E também baixa acuidade visual, já que Veri enxerga somente 5% com a vista esquerda e 65% com a direita; ausência do movimento de Bell – seus olhos não se mexem, só enxergam para frente, e pouco. A área do cérebro que foi lesada é a F7, a que coordena a fala, a memória e a coordenação.

“Depois de todos esses diagnósticos, os médicos me disseram que a Veri teria uma vida limitada e que seria melhor deixá-la quieta, devido aos seus comprometimentos. Mas eu sempre tive muita fé e sabia que Deus e Nossa Senhora me ajudariam a deixar a Veri super bem. Nunca duvidei disso e, pasmem, olhei o cavalo e tive essa intuição, sabia que a saída estava ali. Naquela época não se falava muito em equoterapia, então eu mesma a treinei desde um ano e meio de idade. Como ela apresentava algumas dificuldades em memorizar matérias da escola e músicas, percebi que em cima dos cavalos todas as tarefas se tornavam prazerosas. Assim, a cada passeio uma nova tabuada, e o cavalo foi se tornando um amigo inseparável, uma parte dela para tudo”, lembra Andreia.

A jovem Veri passou por várias cirurgias e durante toda sua vida enfrentou suas dores com muita coragem e determinação, nunca se abalou com nada, já que seu objetivo de vida era maior que tudo.

Apenas para reforçar a assertividade das palavras da mãe, vamos conhecer os fatos pela ótica da própria Veri, que diz em entrevista ao portal Mundo Agro Brasil:

“Eu aprendi a montar a cavalo antes mesmo de saber andar ou falar. O meu primeiro cavalo era o Gigante, um piquira muito baixinho que me entendia como ninguém. Eu tinha um ano e meio e não demorei a perceber que os cavalos eram minhas pernas. Um dia falei para a minha mãe: Nasci no hospital e renasci no cavalo. Eles são tudo para mim.

É algo especial, porque em cima deles consegui enxergar o mundo diferente, sentia o vento bater no meu rosto e assim me sentir livre. E isso eles me deram, autonomia. Estando sobre um cavalo eu só preciso de Deus e de Nossa Senhora comigo. Isso é fantástico!

A convivência com eles me ensinou a aprender sobre respeito, cumplicidade, parceria e liberdade, fatores que me enchem de felicidade. Amo estar em pista, tenho sangue nos olhos rsrsrs.”

Veri criou a página no facebook intitulada “De frente com Veri”, uma big oportunidade de falar sobre todos os assuntos por meio de entrevistas e de expor suas ideias. Ela afirma que o intuito da página é, principalmente, chamar a atenção das pessoas, afim de que possam saber das dificuldades pelas quais passam as pessoas com limitações. “Acho importante abordar isso não só para muitos que estão nesse desafio, como eu, mas para que todos tenham uma visão do que realmente temos que superar, conhecer o tanto que a gente luta para estar no meio social, dos esportes, enfim, nossa participação na vida. Assim como eu, qualquer pessoa pode realizar o seu sonho, como eu realizei o meu. Montei essa página para mostrar que a gente é capaz”.

Veri se relaciona muito bem nas redes sociais. “Sou feliz, sempre vejo a vida com bons olhos, nunca reclamo. Já passei por várias dores, mas sem reclamar e só agradecendo. Gosto sempre de passar para as pessoas como a gente tem que pensar positivo e nunca reclamar da vida. E, com isso, eu fui conquistando mais seguidores, pessoas as quais sinto que estão junto comigo. É muito bacana, as pessoas vêm saber da minha história, saber do meu dia a dia, tirar foto comigo. Quando eu estou em pista, torcem para mim. E, todo esse carinho, essa energia faz a diferença na vida da gente”.

Após assistir inúmeras vezes o filme “Andar, montar, rodeio, a virada de Amberley”, que relata uma história baseada em fatos reais, onde uma campeã de rodeio, depois de um acidente que a deixa paralisada, promete voltar a montar e a competir, Veri entrou em contato com a renomada cowgirl americana, Amberley Snyder, e conversou muito com ela. Durante a entrevista – no espaço De Frente com Veri -, Amberley teceu vários elogios à carreira de Veri e à criação da categoria do Paratambor. A categoria Paratambor na modalidade do Três Tambores é a primeira homologada no Brasil, e pelo que se tem notícias, no mundo.

“Acho a nossa história muito parecida, a da Amberley e a minha, inclusive a participação de sem igual de nossas mães na nossa recuperação. Eu estava um pouco ansiosa para entrevistá-la, e foi uma experiência incrível. Ela disse que queria me conhecer e também falou que nos EUA não existia essa categoria. Dessa nossa prosa, tenho a dizer que o impossível só existe para quem não sonha. Eu tenho muita vontade de correr provas lá nos EUA. Tenho uma amiga, a Keyla Polizello, que vai preparar um animal para eu correr lá nos EUA. Vai ser um ‘divisor de águas’. Eles vão poder ver que outras pessoas enfrentam muita coisa para estar em cima do cavalo”, conta Veri, entusiasmada.

Essa maneira de encarar a vida, assim de frente, como faz Veri, acabou se tornando inspiração para muitos paratletas das modalidades equestres. As palavras que ela joga nas redes sociais são absorvidas com positividade. Não houve dor, cirurgia ou fisioterapia constante que a fizesse desistir. Ela está literalmente com as rédeas nas mãos de sua própria vida, apenas porque se dispõe a isso. E para finalizar, segue uma das frases assinadas por Veri Real: “O meu recado é: acordem felizes, lutem pelos seus sonhos, foquem nos seus objetivos, se façam respeitar, vençam seus medos, nunca desistam dos seus sonhos como eu nunca desisti dos meus. Nós nascemos para ser feliz, independentemente de como viemos ao mundo.”

Fonte: Mara Iasi/Agrovenki
Foto: Divulgação/Hugo Lemes

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