Hoje, algumas iniciativas buscam ensinar na teoria e na prática a realidade do agronegócio brasileiro. São todas muito bem-vindas, porque no ano passado, as notícias que chegaram a todos os envolvidos com o Agro causaram muita indignação. Muitos pais, acompanhando seus filhos nas aulas online, tiveram acesso ao conteúdo de livros escolares e apostilas, percebendo que a imagem do agronegócio não estava sendo passada de maneira verdadeira, e muitas vezes, até de forma deturpada.
Diante desse panorama, a reação de alguns setores da comunidade do agronegócio brasileiro foi imediata. Duas dentre essas iniciativas foram lideradas pela Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeiro Preto (Abag-RP) e pelos acadêmicos Xico Graziano e Marcos Fava Neves. Os dois projetos visam, cada qual ao seu modo, desfazer “confusões” presentes nos livros didáticos do ensino básico brasileiro.
Nesse intuito, a Abag-RP desenvolveu o programa educacional Agronegócio na Escola. A iniciativa, que existe desde 2001, oferece capacitação aos professores de escolas públicas e privadas. Além de palestras e treinamentos, os educadores são convidados a visitar agroindústrias e centros de pesquisas para conhecer de perto os procedimentos da cadeia produtiva. A Abag também oferece um material de apoio, e fica a critério do professor passar o conteúdo para os alunos em sala de aula.
De acordo com Mônika Bergamaschi, presidente do conselho diretor da Abag-RP e ex-secretária de Agricultura do Estado de São Paulo: “As denúncias de pais abriram os olhos para algo que já vem sendo reclamado há muito tempo. Acredito que com a pandemia, eles puderam acompanhar mais de perto a educação dos filhos e passaram a enxergar o equívoco nas informações. Isso é preocupante, pois as crianças têm no professor uma imagem de muito respeito, e quando aprendem algo que não é certo, isso pode levar um tempo para ser desconstruído”.
Segundo a dirigente da entidade, o trabalho para editar os conteúdos distorcidos nos livros escolares leva um tempo para ser feito, por isso deve começar o quanto antes. “Cabe ao setor produtivo apontar onde estão os erros nessas publicações. A academia tem um papel importante nesse contexto. Temos instituições que fornecem dados confiáveis sobre o setor e pessoas capacitadas para efetuar a revisão nos livros”, ressaltou.
O novo mundo rural e a produção de alimentos no Brasil
Na mesma direção caminha a proposta dos professores universitários Xico Graziano e Marcos Fava Neves, intitulada “O novo mundo rural e a produção de alimentos no Brasil”. Também visando a reparação do que consideram erros presentes nos livros didáticos, os autores propõem a discussão de “10 novos temas” ligados ao mundo do agronegócio. São eles:
Tema 1 – Cooperativismo no agro – Cooperativas agropecuárias e outras formas aglutinadoras de produtores rurais se destacam no mundo colaborativo da agropecuária brasileira, que reúnem cerca de 50% da produção de alimentos do Brasil. Suas histórias, em cada canto do país, deveriam ser mais contadas, pois encantam os jovens.
Tema 2 – Aproveitamento dos alimentos. O desperdício de alimentos, suas causas e seu combate, fazem diferença em um mundo onde milhões ainda passam fome. Engajar os jovens na questão do desperdício de alimentos é uma excelente oportunidade para exercícios, exemplos e sugestões, a começar pelo consumo local.
Tema 3 – Matas ciliares. A preservação das áreas que margeiam os cursos de água, obrigatória com a aplicação do Código Florestal no País, está trazendo um aumento das matas que protegem a biodiversidade. Os alunos podem ser levados a trabalhos de reconhecimento de matas ciliares no município onde se localizam.
Tema 4 – Bem-estar Animal. Novos sistemas de condução e produção de animais se evidenciam em todo o mundo, inclusive no Brasil. Significa a implementação de práticas amigáveis e respeitosas, valorizando o espaço livre, as liberdades animais e a senciência (capacidade de sentir) dos bichos.
Tema 5 – Novos alimentos. Aumento da curiosidade e da aceitação de fontes alternativas de alimentos. Crianças e jovens podem conhecer formas alternativas de produção de comida, como as algas e os insetos, as novas frutas que aparecem no mercado (pitaia, por exemplo).
Tema 6 – Bioeconomia. Crescimento de cadeias produtivas baseadas em bioeconomia (biomassa, bioplástico, biocombustível, bioeletricidade, biodiversidade). Incríveis oportunidades surgem devido ao avanço tecnológico, permitindo que plantas, animais e microrganismos se tornem úteis e geradores de valor.
Tema 7 – Agricultura digital. Trabalho de gestão remoto, fazendas inteligentes e agricultura de precisão: um novo mundo se abre com a agricultura digital, abrangendo as propriedades rurais, com equipamentos guiados por GPS, softwares de análise e equipamentos avançados.
Tema 8 – Melhoramento genético. A seleção genética, realizado desde tempos remotos, alterou as características e o comportamento de plantas cultivadas e de animais domesticados. Características desejáveis foram sendo aprimoradas, como docilidade em animais, sabor nos alimentos, maior produtividade. O melhoramento genético é fundamental para explicar o crescimento da população humana.
Tema 9 – Agro colaborativo. As formas de agricultura circular (onde o resíduo de uma atividade é insumo para outra) e a chegada dos modelos compartilhados de produção representam uma vanguarda na dinâmica do agro moderno.
Tema 10 – Atividades secundárias. Apicultura, silvicultura e florestas plantadas, piscicultura e carcinicultura (produção de camarões), floricultura e plantas ornamentais. Existem importantes atividades do agro que nem sempre recebem a atenção da opinião pública ou do ensino.
Agro Brasil
Esses projetos buscam esclarecer as dinâmicas de um setor da economia que, em 2020, exportou cerca de US$ 100 bilhões. Tal recurso entrou pelos portos do Brasil rumo ao interior do país, dinamizando os municípios, contribuindo para o desenvolvimento, com empregos e oportunidades de negócios.
Conforme Xico Graziano e Marcos Fava Neves, “tal conhecimento, sobre a economia e a sociedade, com toda a diversidade existente em um país continental, precisa ser repassado às crianças e aos jovens do ensino fundamental, estimulando-os a refletir sobre a importância presente das relações entre o campo e a cidade. Assim determina a BNCC”.
“A agropecuária brasileira não precisa de esconderijos. Se existem defeitos, históricos e atuais, que sejam expostos, afinal, advêm de uma minoria de produtores. Mas, também é necessário ressaltar as virtudes e, recentemente, os benefícios trazidos pela modernização tecnológica, que configuram um novo mundo rural. Ou seja, trata-se, simplesmente, de contar às crianças a história verdadeira.”
Fontes: Abag-RP/ Poder 360