Hora de celebrar a colheita

27 de julho de 2022

Na semana em que se comemora o Dia do Produtor Rural e da Agricultura Familiar também se mantém o gesto de agradecer a colheita à Mãe Natureza pelos alimentos recebidos
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Hora de celebrar a colheita
Agricultura Familiar é a principal responsável por boa parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros – Foto: aleksandarlittlewolf/Freepik

Muitas são as histórias interligadas ao desenvolvimento social e econômico das nações de todo o mundo junto à importância da agricultura e da pecuária. Campos fartos, comida na mesa, bem como crescimento da interação social e aumento dos ciclos rentáveis para as diversas regiões produtoras. Celebrar a colheita é também agradecer ao produtor rural, é salientar o trabalho do agricultor familiar.

Agricultura Familiar é a principal responsável por boa parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. É constituída de pequenos produtores rurais, povos e comunidades tradicionais, assentados da reforma agrária, silvicultores, aquicultores, extrativistas e pescadores. O setor se destaca pela produção de milho, raiz de mandioca, pecuária leiteira, gado de corte, ovinos, caprinos, olerícolas, feijão, cana, arroz, suínos, aves, café, trigo, mamona, fruticulturas e hortaliças.

Nesse contexto, a gestão da propriedade é compartilhada pela família e a atividade produtiva agropecuária é a principal fonte geradora de renda. Além disso, o agricultor familiar tem uma relação particular com a terra, seu local de trabalho e moradia. A diversidade produtiva também é uma característica marcante desse setor, pois muitas vezes alia a produção de subsistência a uma produção destinada ao mercado.

O Censo Agropecuário de 2017, levantamento feito em mais de 5 milhões de propriedades rurais de todo o Brasil, aponta que 77% dos estabelecimentos agrícolas do país foram classificados como da agricultura familiar. Em extensão de área, a agricultura familiar ocupava no período da pesquisa 80,9 milhões de hectares, o que representa 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros.

De acordo com o levantamento, a agricultura familiar empregava mais de 10 milhões de pessoas em setembro de 2017, o que representa 67% do total de pessoas ocupadas na agropecuária. A agricultura familiar também foi responsável por 23% do valor total da produção dos estabelecimentos agropecuários.

Celebrar a colheita

Agora, neste mês de julho, o assunto vem à tona e, todos, ligados diretamente ao agronegócio ou não, encontram uma maneira de comemorar os ‘frutos’ recebidos. Por aqui no nosso país as notícias são de que a lavouras brasileiras apresentaram bom desenvolvimento em relação às últimas safras.

Cada uma das nações tem sua maneira de comemorar a temporada de fartura e prosperidade no campo. E os festivais de colheita, em especial, seguem a linha cronológica de seu povo desde quando a agricultura passou a ser realidade. As festas de colheita mais características, preservadas há séculos da mesma forma, são, em geral, as que comemoram a boa safra de uva. Mendoza, cidade rural da Argentina e grande produtora de vinhos enaltece sua produção benzendo seu primeiro cacho de uvas da temporada e dando início a um mês de comemorações, que incluem desfiles, shows e degustação de vinhos.

A versão brasileira da festa argentina não é menos interessante. Na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, a celebração da colheita da uva dura dois meses, entre janeiro e março. Neste período, os participantes do festival são convidados a imergir na cultura da uva, com a oportunidade de participar do processo de pisa da fruta e também conhecer as vinícolas da região.

Cada produtor rural, seja ele engajado em indústrias, cooperativas ou na essência da agricultura familiar, depende sobremaneira de vários fatores naturais para que possa receber os frutos de seu trabalho. Por isso, muitas das manifestações que celebram as colheitas, de uma forma ou de outra, trazem em si ainda hoje os legados do reconhecimento das benções da Natureza e da proteção divina. Embora nos dias atuais quando se sobressaem os resultados econômicos, que fazem girar a roda do agronegócio, estejam no topo dos planos da grande maioria, intrinsicamente as pessoas são levadas ao desejo de expressar gratidão, uma espécie de reconhecimento.

É interessante notar que as celebrações de safras, os festivais e tantas manifestações de povos ao redor do mundo se fundamentem em agradecimentos às bênçãos da Natureza e à esperança de novas colheitas.

Este mês, a Holambra Cooperativa Agroindustrial, que celebrou, em Paranapanema, SP, a Festa da Colheita, uma antiga tradição de origem religiosa que se espalhou pelo mundo, e que tem por objetivo celebrar e agradecer a safra colhida e a saúde de todos que se dedicaram para fazer isso acontecer.

Os holandeses que chegaram ao Brasil e fundaram a Cooperativa cultivaram essa tradição que persiste até hoje. “Após dois anos sem a realização do evento devido à pandemia, este ano finalmente a festa pôde ser realizada e comemorou resultados recordes nas produções, mudanças de posicionamento e de marca e muitos planos para o futuro”, diz o representante da cooperativa.

Para o presidente do conselho da Holambra Cooperativa Agroindustrial “os produtores mais uma vez mostraram competência para, em meio a tantas incertezas, colher safras muito boas e aproveitar esse momento para se capitalizar e se estruturar para o novo ciclo de crescimento”. Todo ano, a festa tem um tema diferente, e para 2022 ele foi ainda mais especial: reencontro. “A ideia é celebrar, além da colheita, a união das pessoas que são a razão de existir da Cooperativa.

A colheita é a ação final de um período que se inicia no preparo da terra, passa pelo plantio, irrigação, cuidado e proteção. É chegada a hora de agradecer por esse ciclo que se encerra e celebrar por um novo que está apenas começando. Que venham mais 60 anos de prosperidade”.

É impossível não perceber que os rituais de colheita costumam acompanhar a história do povo que os celebra. No Reino da Suazilândia, pequeno país da África Austral, o Incwala marca o início da abundância de frutos no país e é um dos últimos rituais fiéis à ancestralidade africana. Para manter a tradição, visitantes não podem fotografar nem filmar a festa. Os homens das tribos rumam ao mar para buscar água e, assim, começa o festival que se estende por duas semanas. Galhos da árvore sagrada, lusekwane, são tecidos em um pavilhão onde a refeição é servida.

O feriado de Ação de Graças, ou Thanksgiving, é o mais comemorado nos Estados Unidos. É muito conhecida a tradição de se servir peru, mas o que poucos sabem, no entanto, é que essa celebração teve sua origem no outono de 1621, em Plymouth, Massachusetts, quando uma safra de trigo de sucesso rendeu aos roceiros três dias de festa e abundância.

Já a Alemanha tem o seu próprio Thanksgiving, que também surgiu como agradecimento à boa colheita da temporada. O Erntedankfest é festejado no primeiro domingo de outubro nas cidades rurais alemãs, com música, desfiles e também ações de caridade por parte da igreja. Longe dos holofotes turísticos, o evento mostra uma faceta autêntica e encantadora da cultura local alemã.

Os judeus de Israel também baseiam festividades em tradições ancestrais. O Sukkot, que hoje é um dos eventos mais importantes da cultura judaica, teve sua origem na comemoração de colheitas abundantes, no tempo em que o povo vagava pelo deserto em abrigos temporários e praticava a agricultura sazonal. Hoje, as famílias judaicas reconstroem as cabanas usadas há séculos, onde comem e, às vezes, dormem por sete dias.

Na região oeste de Sumatra, os agricultores de Minangkabau encontraram um ritual inusitado para celebrar a colheita de arroz: surfar em touros. A tradição secular atrai muitos viajantes em busca de experiências tradicionais e excêntricas na Indonésia. Montados em pedaços de madeira, os surfistas agarram nas caudas de dois bois e são puxados em um terreno de lama. A prática tem como finalidade mostrar a força dos animais que, posteriormente, são vendidos em leilão.

Agricultura, deuses e a celebração das colheitas

Deuses da mitologia muito têm a ver com a tradição e a realização de rituais e festivais de celebração das colheitas pelo mundo. A narrativa mais conhecida é a da deusa Ceres, deidade romana da agricultura e da fertilidade. Equivalente à deusa grega Deméter, Ceres representa o poder produtivo do solo, da agricultura e, em geral, a prosperidade.

Como a deusa do cultivo, ela ensinou as pessoas não apenas como fazer plantações, mas também como crescer espiritualmente. Além disso, ela deu o presente da agricultura à humanidade, bem como era única deusa envolvida na vida cotidiana das pessoas comuns e explicava o ciclo das estações. Diz a lenda mitológica que a filha de Ceres foi levada ao submundo e quando sai de lá, na primavera, sua mãe fica feliz e a terra se enche de flores. Elas passam o verão juntas e as safras crescem. No outono, Ceres sabe que a filha tem que retornar ao submundo, então ela preenche o mundo com lindas folhas de outono e as safras estão prontas para a colheita.

Outro país onde o divino e o mundano se confundem é a Índia. Prova disso é o festival Holi, amplamente disseminado fora de seu país de origem. Ele é celebrado no mês de março como uma oferta a Deus para uma colheita farta, mas também como uma maneira de reafirmar a fraternidade do povo indiano.

Desde os tempos primitivos os povos agradecem às colheitas dos seus cereais. As celebrações celtas, por exemplo, Véspera de Agosto e Primeiro Festival da Colheita, realizam a festa que marca o início da estação da colheita e é dedicada ao pão, onde agradecem aos deuses pela colheita com várias oferendas às deidades para assegurar a continuação da fertilidade da terra, com a frutificação das sementes.

Fonte: Redação MAB

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