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Como anda a raça Dorper no Sul do Brasil?

A pecuária ovina na região Sul do País segundo criadores da raça Dorper
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Foto: Cedida pela ABCDorper
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As raças Dorper e White Dorper foram introduzidas no Brasil em 1988 e o empenho de criadores se dá, cada vez mais, na seleção e melhoria desses animais voltados especialmente para a produção de carne. Em 2009, eram apenas 35 mil animais registrados no País. Hoje, de acordo com informações da ABCDorper, são cerca de 140.000 animais registrados e 1.000 criadores espalhados por 21 estados brasileiros.

Embora se trate de animais extremamente adaptáveis, com incrível rusticidade e de fácil manejo, os criadores de Dorper de cada região têm suas peculiaridades e colocam em prática gestões específicas em suas propriedades. Para saber como anda a raça Dorper no Sul do Brasil, conversamos com criadores sulistas de várias localidades, como Pedro Rocha de Abreu Filho, presidente da Associação Paranaense de Criadores de Ovinos (Ovinopar) e titular da Cabanha Poncho Molhado, de Mandirituba; Luiz Artur Legal, da Cabanha Legal, de Itajaí, Santa Catarina; e Marco Aurélio Sanchotene, que está à frente da Cabanha Dorper Obelisco, localizada em Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul.

Principais vantagens da criação no Sul

No Sul, a oferta de alimentação é abundante. De acordo com Luiz Artur Legal, o inverno propicia algumas espécies de forragens, como, por exemplo, a aveia e azevém. “No frio, a região consegue manter pastagens muito ricas. Com teores de proteína de 16%, melhor do que apresentado no verão. No meu caso, por estar numa região litorânea, mas com solo bem fértil, a nossa pastagem é muito rica. A gente tem uma oferta de forragem muito grande por conta da umidade do calor ao longo do ano”, cita o criador catarinense.

Marco Aurélio Sanchotene acrescenta, dizendo. “No inverno, por incrível que pareça, é quando temos mais fartura de alimento. Isso em função das culturas que a gente tem, a aveia e o azevém. O verão é mais crítico por ser seco. Mas aí a gente trabalha com áreas irrigadas para suprir o pasto”, menciona o criador gaúcho.

Paralelo a isso, Pedro Rocha acredita que o potencial agrícola das terras da região acaba competindo, de certa forma, com a pecuária ovina. Afinal, a utilização de grandes áreas para a ovinocultura não é viável devido ao alto poder de eficiência na agricultura. “Isso não quer dizer que a ovinocultura seja uma pecuária que não traga resultados. É, sim, uma atividade em pleno crescimento. No entanto, necessita de organização para conseguir produzir em certa escala. E, assim, fazer parte da cadeia produtiva da proteína”.

Como solução, Pedro vê que as pequenas áreas propiciam boa rentabilidade. “Isso desde que se produza o alimento na propriedade. Já em uma escala industrial, se faz necessário a utilização de áreas maiores, as quais competem diretamente com a agricultura. Mas isso pode ser corrigido, partindo de um bom manejo e consórcio das atividades”, explica.

Animais mais rústicos

Marco Aurélio Sanchotene considera que o Dorper criado no Sul é mais rústico em função do clima. E é interessante ressaltar que a variação de temperatura é muito grande – de 37ºC de máxima no verão, a temperaturas até negativas no período de inverno. Além do frio, há muita umidade na região, o que pode propiciar mais de doenças, além de outros problemas sanitários.

“É um animal mais rústico, porque é mais exposto ao frio. Quando negociamos reprodutores destinados a rebanhos comerciais, eles vão para o campo e nem notam a diferença. É por isso que não podemos criar um animal confinado e depois levá-lo para o campo, pois ficará no frio, na chuva, na geada, sem ter desenvolvido essa adaptabilidade. Daí a necessidade de ser um animal mais rústico”, explica Marco.

Principais dificuldades na criação do Sul

“Neste contexto, enfatizo o volume insuficiente de animais para abate, o que desestimula a abertura de abatedouros na região”, cita Luiz Artur Legal, abordando o problema da escalabilidade. “O abate de ovinos no Brasil é um caso a ser pensando e reestruturado, uma vez que acarreta prejuízos a toda a cadeia produtiva, além de abrir portas para a ilegalidade”, menciona Luiz Artur.

Já para Marco, a parte comercial é a principal dificuldade. “A demanda é muito grande, e muitas vezes às veze por reprodutores baratos, sem preocupação com pureza. Só que, o reprodutor de baixa qualidade, deixa essa característica de herança no rebanho por 10 anos, no mínimo. Com isso, o nosso desafio é mostrar aos criadores que a seleção genética tem um importante sentido,  que melhora no rebanho gera melhores cordeiros, consequentemente, alcança-se maior rentabilidade”.

O que os criadores do Sul sentem faltam?

Para este questionamento, a resposta foi a mesma para os três criadores entrevistados: mão de obra qualificada. “A realidade é que não temos hoje, ainda, novos e significativos investimentos voltados aos criatórios de ovinos, e com isso acabamos trabalhando, muitas vezes, com mão de obra obsoleta. O que falta para gerar um desenvolvimento mais adequado e assistência técnica qualificada, técnicos e especialistas que conheçam os ovinos a fundo. A meu ver, um número muito grande de novos veterinários e zootecnistas estão bastante empenhados na pecuária de corte, intensiva, e não tão focados na ovinocultura. Isso é um fator limitador para nós, hoje”, esclarece Marco.

Especificamente sobre Santa Catarina, Luiz Artur Legal ainda cita as implicações de ordem sanitária do estado, o que, na criação, torna-se um dos fatores prejudiciais, pois dificulta a participação em exposições. Além disso, segundo ele, não há muitas exposições ranqueadas no próprio estado. “Aqui nós temos qualidade de animais para estarmos dentro das exposições, mas a nossa grande dificuldade é retornar. Por exemplo, ir a uma Exposição Nacional, sabendo que para retornar a Santa Catarina teríamos que fazer uma quarentena, o que demora 60, 70, 80 dias, precisando de um refúgio para isolar os nossos animais. Então, isso nos desmotiva”.

Como solução deste e de outros problemas ligados  à criação de Dorper  no Sul, Pedro Rocha aponta como primordial a união entre os criadores. “É um fator determinante para ajudar a alavancar o crescimento. Se trabalharmos de forma cooperativa, teremos força de compra, preços melhores, suplementos etc. Só vamos conseguir superar isto quando estivermos organizados”, finaliza.

Fonte: Redação Agrovenki