Amadurecimento do NFA

O NFA foi criado principalmente para troca de experiências e informações na área de gestão, e se tornou referência nacional em liderança, inspirando a criação de vários outros grupos de mulheres pelo país.

Em 2017, o Núcleo foi transformado em associação, o que aconteceu durante a gestão da pecuarista Carmen Perez, a presidente do NFA naquela época com a vice Regina Margarido. Foi o primeiro grupo de produtoras rurais, em sua maioria pecuaristas a criar uma entidade desse tipo no Brasil, já que os demais grupos funcionam de maneira informal ou estão ligados a sindicados rurais e a cooperativas.

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Amadurecimento do NFA
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Com mais de uma década de existência, o Núcleo Feminino do Agronegócio passou por uma transformação com o próprio desenvolvimento de cada uma de suas integrantes

O NFA foi criado principalmente para troca de experiências e informações na área de gestão, e se tornou referência nacional em liderança, inspirando a criação de vários outros grupos de mulheres pelo país.

Em 2017, o Núcleo foi transformado em associação, o que aconteceu durante a gestão da pecuarista Carmen Perez, a presidente do NFA naquela época com a vice Regina Margarido. Foi o primeiro grupo de produtoras rurais, em sua maioria pecuaristas a criar uma entidade desse tipo no Brasil, já que os demais grupos funcionam de maneira informal ou estão ligados a sindicados rurais e a cooperativas.

Administrando a Fazenda Orvalho das Flores, no Mato Grosso, desde 2002, Carmen Perez se especializou em cria, com foco no bem-estar animal, e heveicultura, a produção de borracha. Ela assumiu a gestão da propriedade, atualmente referência em manejo racional, ainda muito jovem, aos 22 anos, quando sua mãe recebeu parte das terras do pai como herança. Aprendeu tudo que sabe sobre pecuária sozinha, na prática diária, e também contanto com auxílio e orientação de técnicos, como o Dr. Fernando, da Coar, Consultoria, de MG, e o Professor Mateus Paranhos, da Unesp-Jaboticabal. 

“A minha vida mudou muito quando vim para a fazenda, e o que eu pude sentir nos primeiros meses é que pertencia a essa vida. Passei a vistoriar a propriedade diariamente, visitando a maternidade e observando todos os manejos, assim como a parte voltada à gestão.

Procurei muitas fazendas e verifiquei que os manejos eram feitos da mesma forma, mas aquilo me incomodava muito, porque queria fazer diferente. Até que conheci a fazenda do Seu Helvécio Argeu, em Goiás, e lá encontrei uma forma diferente de trabalho, um manejo respeitoso e seguro. Percebendo que havia um novo caminho, entrei em contato com o professor Mateus Paranhos, que passou a me orientar nesse processo desde então.

Toda vez que a vida nos coloca um desafio, assim como os bichos, a gente pode fugir ou lutar. Eu resolvi lutar, e transformar. E não é apenas uma luta interna, é também uma conquista, pois queria que isso pudesse ser uma referência para outras fazendas, para outros vaqueiros, para outros sistemas de produção. E, de lá para cá, eu nunca mais parei. Continuo nesse trabalho firme de conscientização tanto fora quanto dentro da porteira. O bem-estar animal, como todos os processos importantes que fazem parte de uma gestão, é uma rotina na fazenda. Eu acredito na produtividade sustentável, equilíbrio em tudo, muito planejamento para obter bons resultados e com respeito.”

Um dos fatores de importância para a gestão, de acordo com a vivência da pecuarista, é ter essa ‘radiografia’ da fazenda nas mãos. “Utilizamos aplicativos, software, que nos fornecem informações diárias sobre terra, clima, rebanho, nos orientando e ajudando num planejamento. Numa gestão, é necessário se ter projeto, realização e a perspectiva de enxergar nossa fazenda anos à frente. Esses projetos são muito importantes para que a gente saiba qual caminho vamos tomar, onde queremos chegar e como vamos chegar. Porque, ao longo do tempo, isso pode mudar. As pessoas se transformam, as coisas mudam e a gente não tem que ficar preso a sistemas. Temos sim é que ter um Norte, fazer planejamentos anuais, trimestrais, ter acesso a boletins, ver com clareza o que estamos gastando, se está dentro daquilo que foi orçado. E, na minha opinião, toda a equipe da fazenda tem que participar disso, entender onde nós estamos e o que está acontecendo”.

Em 2011, Carmen foi convidada por Carla de Freitas, que era a presidente do NFA, para participar de uma reunião. Naquela ocasião, Carmen não nutria muitas expectativas para aquele encontro. “Pensei nas dificuldades que teria para me deslocar até São Paulo e eu estava com uma filha recém-nascida, mas resolvi ir. Foi uma reunião na Fiesp, com umas 15 mulheres lideradas pela Carla, com muita seriedade. Eu adorei a reunião, me surpreendeu, porque foi a primeira vez na vida que me sentei em uma mesa com um monte mulher falando do mesmo assunto. A partir de então, nunca mais parei de participar. As reuniões do NFA me ajudaram muito ao longo destes anos, inclusive com essa consultoria que eu tenho atualmente, que veio de indicação de integrantes do Núcleo”.

Todas as mudanças que ocorreram desde a fundação do NFA serviram para fortalecer os laços entre as integrantes e o propósito da entidade. Carmen lembra que com a transformação do Núcleo em Associação e do novo estatuto como um ganho importante. Elas decidiram investir mais intensamente em gestão para poder crescer de forma organizada. Essa reestruturação trouxe maior comprometimento, com a elaboração de um estatuto, uma diretoria, composta por presidente, vice-presidente, diretora administrativa, diretora financeira, diretora de comunicação, e também conselho fiscal. “Com isso pudemos nos organizar melhor, inclusive do ponto de vista financeiro, abertura de contas de pessoa jurídica, mensalidades para formar um caixa e ajudar a financiar atividades do grupo, como debates e workshops. Além disso, uma associação pode firmar convênios, parcerias ou contratos com instituições públicas ou privadas, tem um orçamento anual, calendário de reuniões, regras para eleições e entrada de novos sócios. Antes, era tudo mais informal.”

Passo a passo, de conquista em conquista, os objetivos do NFA vão se realizando. O que não muda, na verdade, é a premissa de compartilhar experiências para fortalecer processos produtivos nas fazendas das integrantes, o comprometimento do grupo para que ele seja referência para outras mulheres e, sempre, o foco no negócio. “O que queremos é dar voz à mulher que trabalha no campo, uma voz forte, de liderança”, ressalta Carmen.

“Vejo essa tendência de compartilhar como algo muito feminino. Existe sim um jeito diferente da mulher administrar, porque ela tem uma facilidade maior para delegar, principalmente quando se trata de trabalho corporativo. Talvez por instinto materno, ela olha as pessoas, os animais, o meio ambiente, tudo de forma diferente. Também diferente do homem, que é mais imediatista, a mulher quer lucratividade, mas se preocupa mais com o contexto, com o equilíbrio, tem menos medo de assumir erros e são mais meticulosas. Com o amadurecimento do NFA, dentro das fazendas, as conquistas foram enormes, pois as integrantes se ajudam mutuamente na busca por maior produtividade. Trocamos informações sobre consultorias, projetos em andamento, tecnologias, custos e muito mais. E apregoamos que o caminho para as soluções é ter foco e seguir em frente.”

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