Milho e Trigo: Mercado de grãos entra no ciclo 2025/26 sob forte influência da abundância de oferta global

4 de setembro de 2025

Segundo análises da Hedgepoint, cenário aponta para preços pressionados no curto prazo, mas a amplitude das incertezas climáticas e políticas exige acompanhamento constante, com o mercado altamente sensível a qualquer sinal de mudança no quadro de oferta e demanda global
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Milho e Trigo: Mercado de grãos entra no ciclo 2025/26 sob forte influência da abundância de oferta global

O pano de fundo macroeconômico global segue dominado pelas expectativas em torno da política monetária dos EUA. O Federal Reserve sinaliza possibilidade de cortes de juros a partir de setembro, movimento que impactaria diretamente o fluxo cambial. A perspectiva de queda da taxa americana tende a fortalecer moedas emergentes, em especial o real, pela ampliação do diferencial de juros. O real vem apresentando trajetória de valorização desde o início do ano, tendência que pode ganhar intensidade nos próximos meses.

No entanto, para o Brasil, há fatores adicionais de risco. O processo eleitoral de 2026 já começa a ser precificado, e historicamente, a aproximação do calendário eleitoral tende a gerar maior volatilidade cambial, especialmente no último trimestre do ano anterior. Além disso, tensões comerciais globais — com destaque para as medidas protecionistas e retaliações em curso entre EUA e China — mantêm incertezas relevantes para os fluxos internacionais de commodities.

Nesse contexto, o mercado de grãos opera sob forte influência não apenas de fundamentos agrícolas, mas também do ambiente macroeconômico, na avaliação da gerente de Inteligência de Mercado de Grãos & Oleaginosas da Hedgepoint Global Markets, Thais Italiani.

O ciclo 2025/26 do milho se inicia com expectativa de oferta robusta

A produção mundial deve crescer mais de 60 M ton em relação ao ciclo anterior, puxada pelos EUA. Entretanto, a demanda também avança de forma significativa, sustentada pelo consumo para ração e pelo crescimento do uso industrial, principalmente para etanol. O quadro global sinaliza abundância de oferta, mas com nuances importantes: qualquer descompasso climático na América do Sul ou aumento inesperado da demanda chinesa pode alterar o balanço.

Revisão safra do milho no Brasil

A Hedgepoint revisou a safra total 24/25 para 138,2 M ton, acima da estimativa de junho (+3,7 M ton) e do USDA (132 M ton). O número reflete produtividades recordes em várias regiões do Centro-Oeste, de acordo com o coordenador de Inteligência de Mercado, Luiz Roque.

Para estoques finais a empresa projeta 11,6 M ton, mais folgados em relação ao ciclo anterior. “No país, o consumo interno em expansão é impulsionado pelo etanol de milho. Na temporada 2024/25, cerca de 24 M ton devem ser destinadas à produção de etanol, e esse volume pode dobrar em poucos anos com a entrada de novas usinas”, diz.

As exportações estão estimadas em 42 M ton, mas com risco de redução, dada a forte competitividade do milho americano.

Em relação à comercialização da 2ª safra, segue lenta (43% vs. 50% da média histórica), com produtores segurando parte do volume na expectativa de melhores preços.

Os preços domésticos (Campinas) em torno de R$ 64–65/sc, estão pressionados pela ampla oferta (valores até a data de fechamento do relatório em 29/08).

Na avaliação do analista, no mercado internacional, o Brasil terá de competir também com a Argentina, que deve ampliar exportações no próximo ciclo.

China

• Estoques finais projetados em queda, reflexo de produção estável e crescimento do consumo.

• Margens da suinocultura em patamares baixos, o que limita estímulos para aumento imediato do uso de ração. Apesar disso, o rebanho permanece elevado e estável.
• Caso o governo chinês opte por recompor estoques estratégicos (em torno de 190–200 M ton), há espaço para importações adicionais, criando uma janela de oportunidade para Brasil e Argentina, como ocorreu em 2023/24, quando o Brasil exportou mais de 20 M ton para o país.
• No curto prazo, o milho americano tende a continuar sendo mais competitivo, o que pode impactar as exportações do Brasil.

Estados Unidos

• O USDA surpreendeu o mercado em agosto ao projetar safra recorde de 425 M ton, muito acima das expectativas médias (406–407 M ton). Trata-se da maior safra já registrada no país.
• Estoques devem subir de 33 M ton para 53 M ton, ampliando a pressão sobre os contratos em Chicago, que já romperam o piso de US$ 4,30/bu, trabalhando próximos a US$ 4,00/bu.
• Exportações vêm em ritmo forte: mais de 18 M ton já vendidas para 2025/26, praticamente o dobro do ano anterior nesta mesma época.
• O clima foi favorável durante todo o desenvolvimento da safra, com índices vegetativos (NDVI) acima da média histórica e boas condições para início da colheita.
• Risco: eventuais revisões de produtividade pelo USDA em setembro/outubro podem reduzir parcialmente a estimativa, ajustando os estoques para baixo. Ainda assim, o quadro segue confortável.

Argentina

• Produção atual estimada em 50 M ton, com possibilidade de aumento para 2025/26, dado que as margens do milho superam as da soja. A expectativa é de crescimento da área.
• Câmbio unificado pelo governo argentino reduziu distorções e aumentou previsibilidade, incentivando a comercialização antecipada: produtores já venderam cerca de 5% da nova safra (vs. 1% no mesmo período do ano passado).
• Exportações devem crescer, competindo diretamente com o milho brasileiro no 2º semestre.
• Risco climático relevante: NOAA projeta 60% de chance de La Niña ainda em 2025, o que pode trazer seca na Argentina e Sul do Brasil, afetando produtividades.

Mercado global de trigo em 2025/26 apresenta quadro de ampla oferta

A produção tende a superar a do ano anterior, puxada principalmente pela União Europeia e Rússia, enquanto a Ucrânia segue limitada pela guerra. Estoques globais, no entanto, não crescem no mesmo ritmo e devem permanecer próximos aos níveis de 2024/25, sugerindo equilíbrio, mas ainda com pressão baixista devido à oferta abundante, segundo a Hedgepoint.

Estados Unidos

• Produção um pouco abaixo da safra passada, em função da menor área, mas sustentada por boas produtividades.
• Exportações podem crescer levemente (até 24 M ton), enquanto os estoques permanecem elevados.
• Chicago continua pressionado, refletindo o peso da ampla disponibilidade global e a forte concorrência internacional.

União Europeia

• Safra estimada em 138 M ton, contra 122 M ton no ciclo anterior.
• Importações devem cair de 11 para cerca de 6 M ton, enquanto exportações devem aumentar.
• O ganho de competitividade europeia pressiona também as exportações da Ucrânia, que já sofrem com restrições logísticas e impostos restabelecidos pela UE.

Argentina

• Produção projetada próxima de 20 M ton, com exportações em crescimento.
• No Brasil, a área de trigo segue limitada por margens pouco atrativas, especialmente no Sul (RS e PR), mantendo a dependência das importações de trigo argentino.

Ucrânia

• Produção estimada entre 20–23 M ton, bem abaixo do pré-guerra (33 M ton).
• Além das restrições logísticas, o retorno dos impostos de importação na UE reduz o acesso do trigo ucraniano ao mercado europeu.
• Exportações devem voltar a cair.

Rússia

• Produção em expansão, com exportações favorecidas pela retirada (quase total) dos impostos de exportação.
• Apesar de problemas pontuais de clima durante o desenvolvimento da safra, as colheitas indicam produtividades acima da média, consolidando a Rússia como maior exportador mundial.

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Sobre a Hedgepoint Global Markets

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Por ConteúdoInk

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