Nova tendência do produtor cafeeiro

Migrar parte da produção para outros grãos em busca de maior rentabilidade
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Nos últimos anos, buscando por maior rentabilidade, produtores de médio e grande porte começaram a implementar a produção de grãos em áreas antes reconhecidas apenas como região do parque cafeeiro. Com o avanço dos preços para o mercado de grãos e a subida mais lenta do café, analistas destacam que essa ação já é uma tendência de mercado.

É fato que a produção de café no Brasil é histórica e anda lado a lado com o avanço da economia do país. Mais do que uma produção de café, a cultura tem como característica ser considerada um trabalho no campo que ultrapassa gerações.

José Carlos Grossi é produtor pioneiro na produção de café no Cerrado de Minas Gerais. Grossi chegou na cidade de Patrocínio/MG em 1973 e há 48 anos avança na cafeicultura, tornando-se ao longo dos anos um grande exportador de cafés especiais do Brasil.

Além do café, o produtor também é pioneiro na produção de grãos no Cerrado Mineiro. Com a oscilação dos preços da commodity e o retorno apenas no longo prazo, implementou na propriedade o cultivo de soja, milho, sorgo e até trigo. Segundo Grossi, o principal motivo para a decisão foi a facilidade de fazer mais de uma safra de grãos no período de um ano, enquanto no café, é possível fazer apenas uma produção, lidando ainda com a bienalidade da cultura do arábica e as adversidades climáticas, considerando que o café é mais sensível aos extremos climatológicos.

Outro ponto crucial para a tomada de decisão é o comparativo de custo de produção entre os dois mercados. Segundo Grossi, atualmente, o produtor de café tem um custo entre R$ 15 e R$ 18 mil por hectare, enquanto na produção de grãos, os preços ficam entre R$ 3 e R$ 4 mil, considerando a produção de soja. Se tratando de sorgo, o valor cai ainda mais, ficando em R$ 2 mil por hectare.

Em relação à produção na região, Grossi destaca que principalmente o produtor de grande porte, que consegue mecanizar a produção de cereais, vem aderindo ao cultivo de grãos. “As pessoas estão fazendo contas. No café, os custos estão subindo muito e o café nem tanto. Nos últimos 30 dias, o preço em Nova York deu uma subida. Muita gente acabou vendendo a preços mais baixos na safra do ano passado, então, sem aproveitar essas altas”, comenta.

Fazendo a comparação entre as duas culturas, outro ponto que chamou atenção do produtor é que na produção de grãos utiliza-se uma menor infraestrutura, além dos encargos trabalhistas que também são mais elevados. “O café exige muita mão de obra e mão de obra, fator difícil de lidar. Os encargos trabalhistas são muito grandes, além dos encargos ambientais que também são enormes. Tudo isso acarreta muitos problemas”, diz Grossi.

“O mercado de grãos também apresenta certa facilidade ao produtor quando comparamos as máquinas e tecnologias disponíveis entre as culturas”, menciona o produtor. E, na conta de Grossi, o cálculo mostra que um trator cafeeiro na adubação, por exemplo, é feito quatro ou cinco vezes no ano, enquanto nos cereais um trator grande agiliza o processo. “Um trator cafeeiro para cada 50 hectares, hoje, com os tratores grandes para cereais apresenta rendimento é muito grande. Um operador de máquina faz muita área, permitindo a utilização de menos pessoas para o trabalho. E tudo isso pode ser entendido como uma questão de custos”, acrescenta.

O cafeicultor comenta ainda que a ação tende a ser uma tendência na área do Cerrado Mineiro, principalmente para produtores de café em grande escala e que, ainda assim, mantém a prioridade na produção cafeeira. Pioneiro nos dois cultivos, Grossi orienta que o produtor esteja atento aos custos de produção, estar atento ao mercado e às oportunidades que surgem com a oscilação, mas sempre com cautela para não comprometer ainda mais a rentabilidade em períodos de baixa para os preços.

Já os analistas de mercado enxergam que, cada vez mais produtores de café se interessem em outros tipos de produção. Mesmo assim, não acreditam que isso signifique uma redução de café, levando em consideração que o Brasil é o maior produtor e exportador do mundo.

Hoje, o mercado de grãos está sendo visto com muitos bons olhos para a produção, visando justamente mais rentabilidade, no entanto, analistas do setor não acreditam em uma redução na área cafeeira e também nem se arriscam a apostar em um avanço expressivo na área de produção de café do Brasil, como aconteceu nos últimos 20 anos. Isso porque hoje o Brasil tem concorrência – “Nos anos 80, ou você produzia café ou produzia café. Naquela época o Brasil era importador de soja”, comentam.

Podemos relembrar, por exemplo, que nos anos 60, cerca de 50% da receita cambial do Brasil era proveniente do café. E, atualmente, mesmo batendo recorde de produção e exportação, o café fica atrás da soja, carne, açúcar e madeira. De uma maneira mais resumida, economistas ligados aos setores agrícolas nutrem a impressão de que os produtores consideram que não é mais um bom negócio ficar só em café. Olham sim essa migração parcial por parte dos produtores como uma tendência. Esses produtores que têm de pensar em fatores como o clima, cada vez mais incerto, a demanda alta de soja e, assim, os riscos começam a diminuir, já que são duas sacas no ano, enquanto no café, se houver uma seca, ele terá uma saca só no ano.

“Entrando aqui, ainda, uma breve análise do avanço da produção de trigo no cerrado, que deve ter como tendência um aumento significado na região, os preços não podem ficar abaixo do negociado neste momento na Nova York, considerando a quebra expressiva para o Brasil”, comenta o analista de mercado, Eduardo Carvalhaes. E explica: “Abaixo disso, não remunera o produtor. Todo mundo tiver terra plana e colheita mecanizada, pode ir para o grão. O que vai definir tudo isso, no longo prazo, vai ser a rentabilidade do café daqui para frente”.

E o analista acrescenta: “A qualidade do café brasileiro é excepcional, o que deveria ser um indicativo importante para avanço dos preços. Se pagarem bem, nós vamos passar os 40% de abastecimento mundial de café. Acho que o café deveria valer mais, pelo menos 1,5 dólar por libra-peso. Eu acho que só vai mudar quando começar acabar café e não acho que já estamos nesse ponto”, finaliza. 

Levantamento de Safras

A safra 21, até o momento, é estimada entre 43,8 milhões e 49,5 milhões de sacas, indicando uma redução entre 30,5% e 21,4% em comparação com a safra passada. A queda no café arábica foi mais expressiva, considerando o ano de bienalidade da cultura e a intensa seca e altas temperaturas que atingiram as principais áreas produtoras do país durante o período de florada, no ano passado. Com isso, a Conab estima uma redução entre 32 e 39% para a cultura.

Já para o café conilon, o cenário é mais confortável com indicativo de aumento na produção. Calcula-se uma produção recorde para a espécie conilon, se atingir o limite superior de 16,6 milhões de sacas de café beneficiado, com um incremento de 16% em relação a 2020. Pelo limite inferior, a previsão é de pouco mais de 14 milhões de sacas.

Ao contrário da área em produção, que é a menor dos últimos 20 anos, a área em formação é a maior desse período, reflexo da grave seca que assolou os cafezais e induziram os produtores a aproveitar o ano de bienalidade negativa e destinar uma maior área para realizar tratos culturais nos cafezais. A área de produção indicada é de 1,76 milhão de hectares, com uma redução de 6,8% frente a 2020.

Tendência sim, nova não!

Ao observar essa questão atual do setor cafeeiro no Brasil, veremos que não se trata de algo inteiramente novo, porque, quando se fala de economia, o processo cíclico sempre se manifesta. Basta puxar algumas informações sobre as raízes do café no Brasil para perceber as similaridades nessa tendência, de que, cada vez mais produtores de grande porte busquem uma alternativa mais rentável.

De acordo com a história, o cultivo de café no país teve início no século XVIII, mas sua produção em escala comercial para exportação ganhou força apenas no início do século XIX. Tal dimensão de produção cafeeira só foi possível com o aumento da procura do produto pelos mercados consumidores da Europa e dos EUA.

As técnicas de produção de café eram simples. Inicialmente se desmatavam terras onde era necessário expandir as áreas agricultáveis para a colocação das mudas da planta. Estas demoravam cerca de cinco anos para começar a produzir. Nesse tempo, outras culturas eram plantadas em torno dos cafezais, principalmente outros grãos de cultivo mais fácil e colheita mais rápida. Para a conservação das plantas, eram necessárias apenas enxadas e foices. E, uma vez seco, o café era beneficiado, retirando-se os materiais que revestiam o grão através de monjolos, máquinas primitivas de madeira formadas por pilões socadores movidos a força d’água.

O café foi, dessa forma, um dos principais esteios da sociedade brasileira do século XIX e início do XX, garantiu o acúmulo de capitais para a urbanização de algumas localidades do Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo e cidades do interior paulista, além de prover inicialmente os capitais necessários ao processo de industrialização do país e criar as condições para o desenvolvimento do sistema bancário.

Fonte: Pesquisa Agrovenki/Conab/base de informações Notícias Agrícolas

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