A pesquisadora Silvana Creste, do Centro de Cana, Instituto Agronômico, IAC, de Ribeirão Preto, SP, é responsável desde 2006 por fazer análises laboratoriais para checagem da qualidade das mudas das variedades com intenção de plantio. Na mais recente edição da Agrishow, todo esse trabalho chamou muito a atenção dos presentes, e as produtoras do Núcleo Feminino do Agronegócio, o NFA, sempre de olho na tecnologia, procuraram saber mais sobre o assunto.
Com doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas, pela ESALQ, Silvana Creste vem desenvolvendo pesquisa na área de Biotecnologia no Centro de Cana e é mentora intelectual da tecnologia INVICTA – produção de mudas sadias de cana por meio da limpeza clonal. Ela conta que ao longo dos anos percebeu que as variedades não tinham qualidade fitossanitária suficiente para entregar os altos níveis de produtividade, decorrentes da elevada incidência de doenças transmitidas por mudas, como o raquitismo da soqueira e a escaldadura das folhas.
“Foi em 2012 que iniciamos uma linha de pesquisa com foco no desenvolvimento de uma tecnologia capaz de produzir mudas sadias de cana, visando a multiplicação em viveiros comerciais e, ao final de três anos de pesquisa, desenvolvemos a tecnologia proprietária INVICTA, cujo principal diferencial é a agregação de valor nas cultivares comerciais de cana por meio da limpeza clonal em laboratório de cultura de tecidos. A tecnologia é única no mundo, e por meio dela é possível disponibilizar material propagativo para os viveiros de multiplicação de mudas de cana-de-açúcar, garantindo os requisitos fundamentais quanto à pureza genética e qualidade fitossanitária para as doenças transmitidas por mudas”, diz Silvana.
A cana é propagada vegetativamente, e uma vez plantada, uma variedade vai ser cultivada por vários anos sucessivos, com ciclos de soca e ressoca do canavial. Durante os anos de cultivo, há acúmulo de doenças sistêmicas, que podem resultar na degenerescência da variedade, fazendo que os níveis de produtividade caiam a patamares insustentáveis em termos de rentabilidade e longevidade do canavial. Além disso, por ser uma cultura de propagação vegetativa, faz com que a transmissão de doenças seja direta, isto é, se a planta mãe é doente, todas as plantas filhas também serão.
E o que Silvana explica é que, “por meio da cultura de meristema, nossa experiência mostra que é possível alcançar êxito na limpeza clonal de todos os genótipos de cana, revelados pelos ensaios de indexação. Se combinadas com estratégias de manejo varietal, o uso de mudas sadias possibilita agregar em até 50% a produtividade dos canaviais, e a longevidade do canavial projetada para, pelo menos, mais dois anos”.
Tecnologia e Produtividade
Continuando, a pesquisadora diz: “Acreditamos que é possível alcançar os três dígitos em produtividade na cana. No entanto, será necessária uma mudança de postura em relação à muda, o principal insumo tecnológico do agronegócio cana. A exemplo das comodities soja, milho, algodão, a muda de cana necessita ser tratada como prioridade e responsabilidade e sua aquisição não ser ditada pelo menor preço.”
O sucesso da tecnologia INVICTA com cana-de-açúcar possibilitou que ela seja agora replicada para outras culturas de propagação vegetativa, onde a ocorrência de viroses e bacterioses sistêmicas comprometem o desempenho em produtividade, a exemplo da batata doce e do morango.
Na batata doce, as viroses impactam em até 70% da produtividade, fazendo com que muitos produtores desistam da cultura. Os ganhos com a limpeza clonal da batata doce são excepcionais: além do ganho em produtividade, que a depender da região e da variedade podem quase dobrar, há também uma melhora significativa na qualidade da matéria prima produzida, o que é altamente apreciado pelos consumidores nas variedades gourmet.
Para o morango, o Brasil é dependente da importação de mudas matrizes de países como Estados Unidos, Espanha, Chile e Argentina. Dispor de tecnologia para produção de mudas matrizes de morango no país, reduz nosso risco fitossanitário, como também aumenta nossa competitividade interna e externa, já que atualmente há vários programas de melhoramento no Brasil atuando no desenvolvimento de variedades adaptadas às nossas condições de cultivo.
Por: Agência Agrovenki
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