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Irrigação transforma região de Goiás em polo de fruticultura

29 de abril de 2024

O projeto deve alcançar uma área de 296 ha e produzir anualmente cerca de 4,2 mil toneladas de maracujá e 6 mil toneladas de manga
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Irrigação transforma região de Goiás em polo de fruticultura
Foto: Breno Lobato/Embrapa

A região do Vão do Paranã, no nordeste de Goiás, se prepara para dar um importante salto de desenvolvimento socioeconômico a partir da produção de frutas em sistema irrigado, com a contribuição técnica da Embrapa Cerrados (DF).

A Unidade é parceira do projeto “Fruticultura Irrigada do Vão do Paranã”, lançado em 2023 pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa/GO).

A iniciativa tem como objetivo viabilizar a produção irrigada de frutas como manga e maracujá por 2.500 famílias de agricultores assentados de reforma agrária de Flores de Goiás, Formosa e São João d’ Aliança, municípios abastecidos pelas barragens do Rio Paranã e do Ribeirão Porteira.

Também participam do projeto a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a Emater, o Senar e as prefeituras locais.

Os agricultores participantes recebem kits de irrigação e espaldeiras para o maracujá. Cada propriedade contará com sistema de microaspersão para 1 hectare de manga e um sistema de gotejamento para 1 hectare de maracujá.

O custeio do sistema de produção – mudas, insumos, mão-de-obra, entre outros – é de responsabilidade dos produtores contemplados, que podem financiar esses itens total ou parcialmente por bancos públicos ou privados.

Na primeira etapa do projeto de irrigação, 10 famílias foram contempladas e outras 138 foram selecionadas pela Seapa/GO para receberem os kits em 2024.

De acordo com a Seapa, o projeto deve alcançar uma área de 296 hectares com potencial para produzir anualmente cerca de 4,2 mil toneladas de maracujá e 6 mil toneladas de manga a partir do segundo e terceiro anos de cultivo, respectivamente. Cada produtor tem a meta de produzir 28 toneladas por ano, o que proporcionaria uma receita bruta de cerca de R$ 200 mil somente com a produção de maracujá.

Os primeiros plantios foram realizados entre setembro e outubro de 2023 com a assistência da Emater/GO, do Senar/GO e dos técnicos das secretarias municipais de agricultura, que também auxiliaram na aquisição das mudas e estão acompanhando o manejo dos pomares, que no caso do maracujá já estão em produção. Para subsidiar esse trabalho, os profissionais foram capacitados presencialmente pela Embrapa Cerrados em maio de 2023.

Os agentes multiplicadores também vão auxiliar os produtores no manejo da irrigação para o uso eficiente dos equipamentos adquiridos. A Embrapa Cerrados está produzindo um software para auxiliar os produtores no manejo da irrigação. Também está em elaboração um curso para capacitar os produtores na utilização do software e nos conceitos básicos do manejo da irrigação.

Para Lineu Rodrigues, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Cerrados, o projeto é de grande importância para a Unidade, pois contribui diretamente na melhoria da qualidade de vida das pessoas. “A ideia fundamental é trazer o desenvolvimento para a região por meio da irrigação. Esse projeto será referência para o Brasil e poderá ser replicado em outras partes do País”, acredita o pesquisador.

Alisson Ferreira, gerente de Irrigação, Clima e Agricultura, da Seapa/GO, considera o projeto, que começou a ser delineado em 2019, uma ferramenta de transformação social.

“Flores de Goiás tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do estado e está numa das regiões com mais assentamentos de reforma agrária. Somente no município há 22 assentamentos, com 2.375 famílias, e elas precisam de alguma atividade produtiva. A expectativa é de aumento de renda para os agricultores e a geração de empregos para que essas famílias possam permanecer no campo e viver da atividade produtiva”, comenta.

Alberto do Nascimento Silva, gerente de Apoio à Produção da Codevasf, lembra que a agricultura irrigada tem transformado a realidade de diversas regiões brasileiras, principalmente ao longo da bacia do São Francisco. Ele espera que o projeto transforme o Vão do Paranã num polo de fruticultura, aproveitando a proximidade de Brasília, um grande centro consumidor, e a riqueza em recursos hídricos.

“Diversos rios passam por aqui, há duas barragens e mais uma a ser construída. A água, que é essencial para se trabalhar com agricultura irrigada, não será um fator limitante. Temos solos com alto potencial e enxergamos a fruticultura irrigada como um meio de desenvolver a região, já que essa atividade normalmente gera mais empregos e tem um valor agregado maior que o de outras culturas”, diz.

Otimismo com o projeto

Até o final de março, foram fechadas as duas primeiras vendas de maracujá para a Perboni, uma das maiores distribuidoras de hortifrútis do Brasil. Segundo Alisson Ferreira, a primeira venda foi fechada a R$ 5,30/kg e a segunda a R$ 7/kg. “O preço é sazonal, mas o potencial somente para esse 1 ha de maracujá pode chegar a quase R$ 200 mil/ano. Isso permite que o agricultor participante possa viver da renda gerada dentro da propriedade”, explica.

Já a manga entrará em produção a partir do terceiro ano do projeto, podendo alcançar uma produtividade média de 40t/ha. “Como o preço dessa fruta também é sazonal, ainda não temos uma projeção financeira, mas estima-se que possa chegar a algo em torno de R$ 150 mil/ano para cada hectare”, projeta o gerente da Seapa/GO.

Entre os agricultores pioneiros do projeto estão José Vanderley Gomes e Ana Clézia dos Santos, do assentamento Bom Sucesso II, em Flores de Goiás. O casal trocou o cultivo de hortaliças para se dedicar integralmente à produção irrigada do maracujá e da manga.

“Esperávamos que surgisse uma cooperativa, pois nossa expectativa era pequena, não tínhamos condições. Mas tivemos a oportunidade de participar do projeto através de um vizinho. Fomos selecionados e agora estamos animados”, diz Vanderley.

Com caixas repletas de maracujás na propriedade de 27 ha, o agricultor agora aposta numa boa renda com a produção das frutas. “Não tínhamos renda de praticamente nada e agora estamos tranquilos. Temos planos de aumentar a plantação de maracujá. Acreditamos que teremos como melhorar de vida. Não temos carro, andamos de bicicleta. Creio que futuramente estaremos bem melhor”.

Além da multiplicação da produção de manga e de maracujá nos próximos anos, a região vive a expectativa da construção de uma agroindústria para o processamento dos frutos que não forem comercializados para consumo in natura. Orçado em R$ 5 milhões, o projeto será custeado por um fundo estadual.

Dados climáticos

Em 26 de março, o projeto entregou uma estação meteorológica, instalada na Escola Municipal Rosário e Souza Ferreira, na zona rural de Flores de Goiás. As informações climáticas obtidas da estação vão subsidiar as decisões dos agricultores participantes quanto ao manejo da irrigação. “Estamos começando a entregar os primeiros frutos dessa parceria. É uma estação meteorológica que fará toda a diferença no processo de irrigação”, comenta Alberto do Nascimento Silva, da Codevasf.

Lineu Rodrigues explica que a estação meteorológica é estratégica para o projeto. “A planta, que é a estrela principal, responde diretamente às variações climáticas. A estação meteorológica vai fornecer as informações básicas sobre o clima local que possibilitarão calcular o quanto de água as plantas estão utilizando. Manejando a água de forma correta, o irrigante estará também economizando na energia e aumentando o seu lucro”.

Também pesquisadora Maria Emília Alves, da Embrapa Cerrados, acrescenta que o registro de dados climáticos pela estação meteorológica ao longo do tempo será importante para o planejamento dos plantios no futuro.

“Se você quiser trabalhar com outra cultura agrícola, é preciso estudar os dados climáticos para saber se ela vai se adequar. Por isso, é importante ter na região uma estação meteorológica que gere dados fidedignos e fazer o registro desses dados corretamente para que, no futuro, possamos avançar em outras frentes”, diz.

Além dos dados diários de chuva, temperatura, umidade relativa do ar, radiação solar, velocidade do vento gerados pela estação meteorológica e que poderão ser acessados em tempo real com o uso de um telefone celular, os agricultores poderão contar futuramente com um aplicativo que reunirá dados georreferenciados sobre as características dos solos da região e das plantas de manga e maracujá.

A previsão é de que o aplicativo, que será desenvolvido pela Embrapa Cerrados, esteja disponível até julho deste ano. Os agricultores e os jovens envolvidos no projeto serão capacitados para o uso da nova ferramenta. “Com essas informações, o produtor poderá verificar se precisa irrigar ou não e, se tiver que irrigar, o quanto tem que irrigar e por quanto tempo precisará deixar o sistema de irrigação ligado para suprir as necessidades hídricas das plantas”, explica Lineu Rodrigues.

Os agricultores também estão aprendendo sobre técnicas de manejo da irrigação e o uso de equipamentos como tensiômetros (usados para medir a tensão da água retida no solo) e sondas de TDR (determinam a umidade e a condutividade elétrica do solo), entre outros. “Um dos legados que queremos deixar com esse projeto é mostrar que tecnologias modernas de irrigação não são exclusivas de grandes irrigantes. Água e energia viabilizam o uso da irrigação, que traz desenvolvimento e transforma vidas”, completa o pesquisador.

De Abrafrutas

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