Search
Close this search box.

Em busca do azeite perfeito: estudo diz que Brasil tem padrão internacional

3 de agosto de 2023

Iniciativa da Embrapa e da UFRJ monta um painel sensorial de especialistas para avaliar aparência, aroma e sabor. A pesquisa completa ainda vai durar mais 5 anos
Compartilhe no WhatsApp

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com o reforço da criação do INCT OABras (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Olivicultura e do Azeite Brasileiro), apresentou na segunda-feira (1) o resultado de uma pesquisa sobre a qualidade do azeite de oliva produzido no Brasil.

O estudo, parte de um projeto que começou há sete anos e deve durar mais cinco, mostra que o produto brasileiro possui padrão internacional de qualidade.

“Geramos uma série histórica, com informações inéditas, que contribui para melhoria e formulação de políticas públicas voltadas para o estabelecimento de um marco regulatório para o produto, com objetivo de fortalecer a olivicultura no País”, diz Adélia Machado, pesquisadora da Embrapa.

Os estudiosos da entidade analisam há sete anos a composição química do azeite brasileiro. Com isso, foi possível caracterizar os óleos e montar um painel sensorial com um grupo de especialistas para avaliar o produto, considerando aparência, aroma e sabor, entre outros critérios. O conjunto de resultados demonstrou que a composição em bioativos e voláteis de azeites de oliva virgem de diferentes variedades de oliveira atende aos parâmetros da legislação nacional e internacional.


O aporte orçamentário contará com mais R$ 6 milhões até a conclusão da pesquisa. A iniciativa pretende solucionar gargalos tecnológicos, a fim de garantir alta produtividade das oliveiras e a qualidade do azeite de oliva brasileiro. A equipe da Embrapa, UFRJ e INCT OABras é formada por 34 cientistas de 18 instituições de pesquisa nacionais e internacionais. A liderança é Embrapa Agroindústria de Alimentos, localizada em Guaratiba (RJ) e financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

O que é um painel sensorial e para o que ele serve


A avaliação do azeite de oliva por teste de painel é o único método sensorial incluído na regulamentação internacional de óleos comestíveis que pode classificá-lo entre os tipos extra virgem, virgem, comum ou lampante, explica a pesquisadora Daniela Freitas, responsável pelo painel sensorial da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Hoje, o Laboratório Federal de Defesa Agropecuária, localizado em Porto Alegre (RS), e que pertence ao Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) é o único no Brasil reconhecido pelo COI (Conselho Oleícola Internacional), cujo painel sensorial foi credenciado em dezembro de 2021.

Este ano, o painel da Embrapa participa pela primeira vez do teste de proficiência organizado pelo COI, que avalia a sua competência e permite verificar o desempenho comparando-o aos demais painéis sensoriais oficiais já credenciados pelo órgão. “O resultado satisfatório do teste de proficiência será fundamental para o reconhecimento deste painel sensorial junto ao COI”, diz Freitas.

A composição química dos azeites de oliva brasileiros é estudada há sete anos na Embrapa, em parceria com a UFRJ, tanto em relação aos padrões de qualidade e identidade quanto à composição de aromas (voláteis). A qualidade do azeite é relacionada a diversos fatores, como agronômicos, tecnológicos e condições de armazenamento. Os parâmetros de identidade e qualidade do azeite são definidos por instruções do Mapa, que, por sua vez, segue a regulamentação da União Europeia.

Mapa de aromas de azeites nacionais


O azeite extra virgem tem um aroma complexo, contendo várias centenas de substâncias voláteis. Seu aroma está relacionado com a variedade genética da oliveira, o solo e o clima onde é cultivada e as condições de extração e armazenagem do azeite de oliva, como aponta o pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos Humberto Bizzo, que realizou uma capacitação como Cientista Visitante no grupo de Química de Alimentos do Departamento de Ciência e Tecnologia do Fármaco da Università degli Studi di Torino, em Turim, Itália, para a aplicação da técnica de cromatografia multidimensional abrangente na análise dos voláteis (aromas) dos azeites brasileiros.

Vinte e sete azeites brasileiros, sendo 15 produzidos no Rio Grande do Sul e 12 na Serra da Mantiqueira, tiveram seus voláteis amostrados por microextração em fase sólida e analisados por cromatografia gasosa multidimensional abrangente acoplada à espectrometria de massas.

Os resultados preliminares indicam que a técnica de cromatografia multidimensional abrangente constitui uma importante ferramenta para a caracterização dos azeites brasileiros, cuja aplicação permitiu o estabelecimento de marcadores químicos para processos de indicação de origem e ocorrência de adulteração. A vantagem do uso dessa técnica é que possibilita a agregação de uma elevada quantidade de informações química sobre os voláteis das amostras.

image

Humberto Bizzo/Embrapa
Oliveiras plantadas no município de Maria da Fé, na Serra da Mantiqueira (MG)

Bizzo é vice-coordenador do INCT OABras e irá coordenar as análises do perfil dos componentes voláteis presentes em amostras de azeite de oliva nacional, responsáveis por seu aroma, por meio da técnica cromatografia gasosa multidimensional abrangente. “Após a realização da pesquisa, teremos um mapa de aromas do azeite de oliva brasileiro, a partir de uma correlação mais precisa entre voláteis e origem geográfica ou variedade utilizada. Os dados obtidos serão como impressões digitais dos azeites brasileiros”, explica o pesquisador.

Uma outra vantagem da técnica é a possibilidade de reduzir a ocorrência de fraudes e adulterações. A metabolômica de aromas constitui atualmente o estado da arte na análise de alimentos. Tem sido aplicada com sucesso na análise de café, chá preto, cacau, avelãs e frutas. “Nesse projeto, pretendemos atuar em conjunto com os produtores de azeite, a fim de aumentar a oferta, diminuir fraudes e solucionar problemas que interferem na olivicultura nacional”, afirma Bizzo.

Produção e consumo de azeite de oliva no Brasil


Atualmente, o Brasil é o terceiro maior importador mundial de azeite de oliva, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia. O azeite brasileiro tem qualidade reconhecida por prêmios internacionais conquistados nos últimos anos, mas a produção local ainda é incipiente. Iniciada na última década, chegou a 503 toneladas em 2022, o que representa apenas 0,24% do consumo nacional. O Rio Grande do Sul e a região da Serra da Mantiqueira apresentam os maiores volumes de produção, em razão dos aspectos favoráveis de clima e relevo.

“O conhecimento gerado a respeito das variedades cultivadas no Brasil contribuiu para a caracterização de um produto de elevado valor comercial e de grande interesse pelos aspectos nutricionais e de benefícios à saúde”, aponta Adélia Machado. Nos últimos anos, a pesquisadora coordenou projetos para caracterização do Padrão de Identidade e Qualidade (PIQ) de azeites de oliva produzidos nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.


Integrante do Programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, o INCT OABras é composto por seis áreas de pesquisa e desenvolvimento: sistema de produção; fitopatologia; química e metabolômica; agroindustrialização e produção de azeite de oliva; análise sensorial e estudos do consumidor; coprodutos do aproveitamento do bagaço de oliva e de folhas provenientes da poda.

“Os pesquisadores irão atuar na cadeia produtiva da oliveira no Brasil, desde a perspectiva agronômica no campo, passando pela agroindustrialização até a qualidade química e sensorial dos azeites brasileiros, a fim de promover a expansão da olivicultura e melhorar a qualidade do azeite de oliva brasileiro”, explica a pesquisadora Rosires Deliza, coordenadora do projeto e responsável pelo Lasi (Laboratório de Análise Sensorial e Instrumental) da Embrapa.

Também estão previstas ações de aproveitamento e valorização dos resíduos provenientes da produção de azeite para agregação de valor aos coprodutos gerados, com redução do impacto ambiental e incremento da renda dos agricultores, além de ações de popularização da ciência e de comunicação para o setor produtivo e para o consumidor. “A formação do painel sensorial de azeites terá um importante papel para alavancar a olivicultura brasileira ao promover o consumo e a valorização do azeite brasileiro de qualidade”, diz Deliza.

Por Forbes

Leia outras notícias no portal Mundo Agro Brasil 

Relacionadas

Veja também

Dados mostram que serão produzidos 193,15 mil litros, abaixo do recorde de 580,22 mil litros do período anterior
Safra total de milho foi estimada em 114,14 milhões de toneladas, um acréscimo de 2,5 milhões de toneladas em relação ao previsto no mês passado; área plantada deve crescer 1% e produtividade deve avançar 1,2%
Essa parceria confirma a missão do AgroApp que é levar informações de qualidade para o produtor rural e profissional do campo.
Na comparação com a média diária de junho de 2023, há queda de 16,6% no valor obtido diariamente pelas exportações de açúcar em junho de 2024.