Em entrevista ao jornal O Tempo, o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Glauber Silveira, disse que o risco de desabastecimento de óleo diesel no segundo semestre preocupa os produtores rurais. O alerta foi dado na semana na última semana de maio em ofício da Petrobras encaminhado à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Para Glauber a situação é preocupante. “Principalmente, porque temos um momento importante da colheita do milho. São 60 dias de colheita não só de milho, mas de algodão, girassol e feijão. Somos 100% dependentes”, revela.
Ainda de acordo com Glauber, a segunda safra de grãos no ano deve ir até agosto, a depender da localização do produtor. O problema é que o escoamento dessa produção se estende aos meses posteriores, inclusive em setembro, quando a Petrobras estima ser o momento de maior escassez do óleo derivado do petróleo. “Sem falar que nós temos que colher. Precisamos abastecer as máquinas: colheitadeiras, caminhonetes e pulverizadores. Tem ainda a vinda de insumos para a terceira safra, que se inicia após o dia 15 de setembro. O interior do Brasil é uma máquina que não pode parar, e o diesel é seu combustível”, afirma.
É importante lembrar que um possível problema na produção dos grãos também se estenderia a outros setores, como as granjas, onde a alimentação das aves gira totalmente em torno desses produtos.
Quem trabalha com o transporte autônomo de cargas também se preocupa com o desabastecimento de diesel. Além do lucro do frete se encolher com a inflação galopante, sobretudo contra o diesel, uma possível escassez tiraria qualquer possibilidade de trabalho nas rodovias. “É aquilo que temos alertado desde a implementação do Preço de Paridade de Importação (PPI, atual política de preços da Petrobras). Não necessitamos disso, porque somos superavitários em petróleo. Temos sobra de petróleo cru, mas não refinamos. Isso por si só já resolve o problema (da escassez)”, diz Carlos Alberto Litti Dahmer, diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL).
Em Minas Gerais, o Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg) analisa a situação com mais cautela. Para a entidade de classe, a situação só pode se agravar para quem não tem as contas em dia. “Tivemos um problema de falta de diesel há dois meses. Agora, eu serei sincero: conversei com algumas distribuidoras, que me disseram que já estão importando o produto. Estão trazendo do exterior. Sempre trouxeram, mas aumentou um pouco (por conta da possível falta do diesel). Aquele transportador que está com suas contas em dia e repassa (os custos) não terá problema algum”, diz o presidente do Setcemg, Gladstone Lobato.
ANP
Procurada, a ANP informou que “vem atuando diligentemente para se antecipar a riscos ao abastecimento nacional de óleo diesel que, neste momento, acontece com regularidade”.
Segundo a agência, há “contato permanente com os agentes do setor”, assim como com “especialistas e analistas”, para entender o “cenário mundial atual”. O objetivo é “garantir a oferta do produto” ao consumidor.
Reflexos de escassez do diesel
O Tempo mostrou no dia 27 de maio, uma reportagem onde o professor de logística da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Resende, diz que 80% do transporte de cargas do País é sobre rodas. Para ele, a falta de alimentos numa possível crise no abastecimento aconteceria em 10 dias.
“Nós teríamos uma falta de combustível nos postos em uma semana. Em 10 dias, nós teríamos o início de desabastecimento de gêneros alimentícios nos supermercados. Nas linhas de produção, o problema começaria em três dias. É um cenário parecido com o da greve dos caminhoneiros (em 2018), mas de uma gravidade maior”, diz o coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral.
Para o especialista, “a falta de estabilidade administrativa” da Petrobras, que teve seguidas trocas de comando, tem peso na possível falta de diesel no varejo no segundo semestre.
Guerra internacional
Outro fator que pesa é a guerra entre Rússia e Ucrânia. Por conta das sanções, o País de Putin sai da mesa de negociações, o que reduz a oferta de diesel no mercado internacional.
Apesar de o Brasil produzir cerca de 75% do diesel ofertado ao varejo, a falta de produto substitutivo para o combustível faz com que qualquer desfalque faça muita diferença, como explica Paulo Resende. “A aritmética nos leva a pensar que ainda tem 75% disponível. Mas, o diesel tem contratos de longo prazo, que você acaba com a credibilidade da empresa (a Petrobras), se for quebrado. É como um brinquedo: você amassa de um lado, e ele deforma como um todo”, afirma o especialista em logística da Fundação Dom Cabral.
Fonte: O Tempo, Abramilho
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