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Agroflorestas: Com cacau, banana e açaí, produtores aliam floresta em pé e produção de alimentos

4 de novembro de 2023

Sistema produtivo ganha espaço sobretudo na Amazônia e garante renda o ano todo ao produtor
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Agroflorestas: Com cacau, banana e açaí, produtores aliam floresta em pé e produção de alimentos
Para especialistas, o sistema de agroflorestas pode ser mais rentável aos produtores, além de ser uma forma mais sustentável de manejo da terra, que ajuda no combate às mudanças climáticas Foto: ALEX SILVA

Lavouras de cacau alternadas com plantações de banana, linhas de guaraná semeadas com cupuaçu, cacau com seringueira, coco e seringueira essas são as agroflorestas, também conhecidas como Sistemas Agroflorestais (SAFs). O sistema funciona como uma produção consorciada de culturas arbóreas, geralmente produtivas, e agrícolas e reúne várias espécies vegetais na mesma área, diferentemente das monoculturas.

No Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o mais recente, havia mais de 13,863 milhões de hectares cultivados em sistemas agroflorestais no País. Neles são plantados produtos extrativistas que contribuem para a conservação dos biomas brasileiros, incluindo açaí, andiroba, abacate, macadâmia, babaçu, baru, borracha, buriti, cacau, castanha do Brasil, juçara, macaúba, mangaba, murumuru, pequi, piaçava, pinhão e umbu.

A expansão vem ocorrendo sobretudo no bioma amazônico, mas também há sistemas agroflorestais produtivos no Cerrado (seringueira + café + banana), na Mata Atlântica (bananeira + cacau + copaíba) e nos Pampas (erva-mate + pinhão). Os SAFs são adotados especialmente por pequenos e médios produtores. A maioria das espécies são nativas nas regiões, portanto, mantêm as florestas locais “em pé”.

As agroflorestas se inserem nos conceitos mais contemporâneos de agricultura sustentável, de baixo carbono, regenerativa e conservacionista, diz o gerente de cadeias agropecuárias do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Eduardo Trevisan. “São vários benefícios ambientais, como a maior proteção do solo, um potencial grande de sequestro de carbono e a sua utilização para recuperar áreas degradadas”, diz Trevisan. “Na Amazônia, é muito comum a agrofloresta como uma alternativa para recuperação de áreas desmatadas e pastos degradados. São sistemas adaptáveis a todas regiões do País”, acrescentou o pesquisador.

No Pará, a 190 quilômetros de Belém, em Tomé Açú, no coração da Floresta Amazônica 1,5 mil agricultores familiares em uma área de 44 mil hectares (sendo 7 mil produtivos e 7 mil em renovação) adotam o sistema, segundo a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta). Na região, as agroflorestas começaram com a comunidade ribeirinha pela produção de frutas no entorno das residências.

Na década de 1980, a produção foi intensificada com a imigração japonesa na região e a criação do Safta, sistema agroflorestal de Tomé-Açú, que reúne plantas perenes nativas da região – cacau, açaí, dendê – e produção frutífera – mamão, maracujá. “Demos escala à produção. É um sistema de produção de alimentos com duração, em boas produtividades, de 25 a 30 anos até serem renovadas, diferentemente de lavouras de soja e milho que duram três meses”, conta o presidente da Camta, Alberto Oppata.

Ele observa que o “safta” é um sistema ambientalmente “mais harmônico” por criar um microclima com insetos e maior biodiversidade pela pluralidade de cultivos. Nas entrelinhas das agroflorestas, produtores mantêm também lavouras de milho, arroz e abóbora. “São áreas que já foram antropomorfizadas (que ganharam características humanas). Após trinta anos, renova-se as áreas com a retirada e venda das madeiras, sem queima”, lembra. Hoje, a Camta vê como um dos desafios para ampliar os sistemas a ausência de equipamentos acessíveis para colheita e manutenção das áreas.

Rentabilidade e bioeconomia

Uma das principais vantagens econômicas das agroflorestas aos produtores rurais é o fato de que o cultivo consorciado de produtos permite que os agricultores tenham colheita ao longo de todo o ano, gerando renda contínua ao produtor, e incentivando as comunidades locais. Em Tomé-Açú, por exemplo, a safra do cupuaçu vai de dezembro a junho, quando entra a colheita da pimenta-do-reino, seguida pela safra do cacau. Na sequência, vem a safra do açaí, que se estende até outubro, segundo o presidente da Camta. “Com a diversificação, o produtor tem receita mensal. Os produtos são divididos entre curto, médio e longo prazo para assegurar renda ao agricultor”, conta Oppata.

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No modelo de produção de agroflorestas, os produtores reúnem culturas como cacau, banana, cupuaçu, entre outras commodities que são cultivadas juntas.  Foto: Mary Melgaço/ Estadão

Hoje, a cooperativa mantém uma indústria de processamento dos frutos e comercializa 60% da produção para o mercado doméstico e 40% para exportação. O carro-chefe da produção é o açaí, de 3 mil a 4 mil toneladas processadas por ano. Opatta acrescenta que o impacto econômico da cooperativa alcança 10 mil pessoas, já que cada hectare plantado demanda mão de obra de três pessoas.

O custo de produção deste cultivo integrado de espécies também é inferior que o da lavoura tradicional ao exigir menor uso de produtos químicos pela produção consorciada das espécies e, consequentemente, menor crescimento de espécies invasoras. “Depois que o sistema está consolidado, o produtor não utiliza mais herbicidas porque o solo é mais úmido e há mais matéria orgânica com o cultivo diversificado”, afirma Oppata.

Trevisan, do Imaflora, lembra que a diversificação do cultivo garante ao produtor, além de ter várias rendas na mesma área produtiva, uma maior proteção à volatilidade dos preços das commodities. “Por exemplo, se o preço do cacau está baixo e do banana atrativo, ele consegue uma maior estabilidade na renda. Além disso, alguns produtos têm potencial de exportação, caso do café e do açaí”, afirma Trevisan. “Se comparada à pecuária intensiva, a agrofloresta permite obter uma renda até cinco vezes maior na mesma área. Sem dúvidas, é um sistema viável economicamente”, avalia o pesquisador do Imaflora.

O instituto fornece assistência técnica e financiamento para insumos a projetos de sistemas agroflorestais em Santarém e em São Félix do Xingu, no Pará. Apesar do avanço dos sistemas agroflorestais nos últimos anos, Trevisan observa que um dos principais gargalos para a difusão do modelo segue sendo a chegada da assistência técnica à agricultura familiar. “Existem alguns modelos simplificados e que são mais fáceis de dar escala como cacau e seringueira, mas plantas arbóreas com espécies madeireiras, dependem de mudas, sementes, conhecimento do produtor das tecnologias e muito investimento em capacitação e assistência técnica”, diz Trevisan.

Governo quer incentivar agroflorestas

Diante do potencial de expansão das agroflorestas no Brasil, o governo federal desenha um programa de incentivo ao modelo. A iniciativa, chamada de Programa Nacional de Florestas Produtivas, está em construção, conta o secretário de governança fundiária, desenvolvimento territorial e socioambiental do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Moisés Savian. A ideia é criar uma política pública de incentivo aos SAFs com assistência técnica específica e crédito rural. “Os sistemas agroflorestais, por envolverem plantas arbóreas, apresentam maior resiliência às mudanças climáticas, como a mudança no regime de chuvas. É um sistema viável para produzir alimentos e contribuir com o sequestro de carbono”, diz Savian. “Aliar produção de comida, geração de renda e agenda ambiental é bastante viável”, defende.

O projeto inaugural do programa está sendo feito no Pará abrangendo 1,6 mil famílias de 20 assentamentos rurais, com investimento de R$ 3,6 milhões para restauração das áreas com agroflorestas “A Amazônia é um bioma que reúne uma concertação maior ao trazer a COP-30 para o País e um dos locais com maior insegurança social e de renda. Queremos chegar na COP-30 com resultados concretos do projeto e, no âmbito da discussão climática, discutir financiamento para expansão do programa”, diz. Esses produtores serão atendidos por dois anos com assistência técnica, viveiros comunitários de sementes, unidades demonstrativas, e integração ao crédito ofertado no Plano Safra e ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Segundo Savian, o objetivo é estender o programa de florestas produtivas a todos os biomas brasileiros e, além de produtores assentados, atender agricultores familiares e populações tradicionais. “Buscamos captar recursos para dar escala ao projeto em estratégia de multi- financiamento. Há conversas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Amazônia e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)”, pontua.

A metodologia do programa está sendo elaborada junto com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que também destinou recursos ao projeto. “A intenção do governo é criar um grande programa de restauração produtiva com produtos da sociobiodiversidade, promovendo segurança alimentar para atender o Brasil e exportar”, afirma o secretário do MDA.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) vê na agroflorestal uma forma de combate à fome no mundo e sugere aos governos compensações financeiras aos produtores que plantam florestas produtivas, uma espécie de pagamento por serviço ambiental. Segundo a FAO, a Costa Rica é um modelo de sistema agroflorestal, após ter colocado em lei um fundo de financiamento agroflorestal.

Summit Agro 2023

Sistemas sustentáveis de produção, como as agroflorestas, serão discutidos no Summit Agro 2023, organizado pelo Estadão e que terá como tema “A nova revolução verde – do alimento à energia, o potencial do Brasil para ser superpotência”.

O evento ocorre no dia 8 de novembro, no auditório do Masp, em São Paulo, e contará com a participação de renomados nomes do agronegócio. As palestras também poderão ser acompanhadas pelas redes do Estadão e pela página oficial. Veja como se inscrever: em Summit Agro.

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